A Evercore ISI reiterou recomendação de "outperform" para a Salesforce logo depois da Dreamforce, o evento anual da empresa em São Francisco, que é menos conferência técnica e mais culto religioso com badge de pescoço. E o mercado recebeu a nota como quem recebe tábua de Moisés: sem questionar, sem checar, sem lembrar que casas de análise de Wall Street têm um histórico de acerto que faria corar cartomante de feira. A pergunta que ninguém faz, porque fazer é falta de educação no clube, é simples: o que mudou no negócio da Salesforce entre a semana passada e esta, além do fato de o CEO ter subido num palco e prometido, pela quinta vez em cinco anos, que a inteligência artificial vai revolucionar tudo?

Olha, existe uma coreografia que se repete há décadas em Wall Street, e quem trabalha no setor sabe de cor. A empresa faz um evento, convida analistas, paga hotel, paga jantar, apresenta slides bonitos, o CEO faz piada, o CFO recita números, e no dia seguinte sai uma enxurrada de relatórios reiterando o que já estava escrito antes do avião pousar. A análise é uma formalidade que legitima uma decisão já tomada, e a decisão já tomada raramente tem relação com o valor real do ativo. Tem relação com fluxo de banco, com posição institucional, com o fato de a Salesforce ser componente pesado do Dow Jones e ninguém querer ser o cara que rebaixou a queridinha na véspera de um trimestre morno.

E aqui entra a parte que interessa. A Salesforce é o exemplo perfeito daquele tipo de empresa que virou grande demais para ser avaliada com honestidade. Ela compra concorrente, incha o balanço com aquisições que ninguém entende direito como se pagam, promete sinergias que somem no relatório do ano seguinte, e sempre, sempre, tem um novo produto salvador na manga. Foi a nuvem, foi o Slack comprado por 27 bilhões que ninguém sabe se valeu, foi o data cloud, agora é o Agentforce, o agente de IA que vai substituir seu funcionário e cobrar por consulta. O ciclo se repete porque funciona: quem duvida perde bônus, quem aplaude ganha convite para o próximo evento.

O problema não é a Salesforce em si, é o sistema que produz esse tipo de análise e chama de informação de mercado. É um pequeno cartel intelectual em que uma dúzia de casas de análise, todas alimentadas pelos mesmos bancos, todas convivendo com as mesmas empresas, todas dependendo dos mesmos fluxos de banking, produzem relatórios que dizem exatamente aquilo que o cliente institucional quer ler para justificar a posição que ele já tem. Não é conspiração, é incentivo. Ninguém precisa combinar nada quando todo mundo come na mesma mesa e ganha do mesmo lado do trade. O investidor de varejo, esse pobre coitado que lê a manchete no Investing e acha que está tomando decisão informada, é o penúltimo elo da corrente. O último é o aposentado do fundo de pensão que vai descobrir daqui a três anos que ninguém estava olhando.

E tem a questão da inteligência artificial, porque não dá para falar de Salesforce em 2026 sem falar disso. Toda empresa de software com marketing decente descobriu que basta colocar IA no nome do produto para o múltiplo subir. Não importa se funciona, não importa se dá lucro, não importa se o cliente entende o que comprou. Importa a narrativa. E a narrativa é o novo ativo mais valioso do capitalismo tardio: vale mais do que patente, mais do que patrimônio, mais do que fluxo de caixa. O sujeito que domina a narrativa colhe o múltiplo, e o múltiplo paga a folha, o bônus, o jatinho e o evento do ano seguinte. É um sistema fechado que produz o próprio combustível.

O leitor que quer se proteger disso tudo tem uma tarefa simples e desconfortável. Quando ler que uma casa de análise reiterou recomendação depois de um evento da empresa, traduza mentalmente para o português: nada mudou, mas precisávamos escrever alguma coisa para justificar o custo da viagem. E quando o próximo trimestre vier e a empresa entregar menos do que prometeu, o mesmo analista vai escrever outro relatório explicando que os fundamentos de longo prazo continuam intactos, que o mercado está exagerando na reação, que é hora de comprar na baixa. Sempre é hora de comprar. Nunca é hora de vender. Porque quem vende não paga o jantar da Dreamforce do ano que vem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.