Um EVP da Belden acabou de descarregar US$ 217.341 em papéis da companhia e o release corporativo desce pelo noticiário como azeite em prato liso, sem que ninguém pergunte o óbvio. Executivo vende ação da própria empresa porque acredita que ela vai valer mais amanhã? Não. Vende porque, no cálculo íntimo dele, aquele dinheiro rende mais no bolso hoje do que preso ao balanço do trimestre que vem. E o mais engraçado é que o mercado inteiro sabe disso, mas finge que é diligência fiduciária, planejamento tributário, diversificação de portfólio, qualquer eufemismo que evite a palavra que deveria estar no título da matéria: alguém está saindo enquanto convida você a entrar.

Existe um princípio elementar, tão velho quanto o escambo, que diz o seguinte: valor não está na coisa, está na cabeça de quem troca. Se o vice-presidente executivo, que dorme com o balancete debaixo do travesseiro e conhece o esqueleto de cada armário da companhia, decide que prefere ter dólar em conta corrente a ter participação acionária, ele está lhe dizendo alguma coisa. Não em palavras, porque em palavras ele vai repetir o script do departamento de relações com investidores. Mas em ato, que é o único lugar onde o caráter se revela e onde o discurso não engana. A pergunta que o pequeno investidor deveria fazer não é quanto ele vendeu, é por quê. E a resposta não está em nenhum comunicado ao mercado.

Note o padrão, porque ele se repete com a regularidade de um metrônomo. Os grandes ganhos acionários das últimas décadas foram capturados por quem estava dentro, os grandes prejuízos foram distribuídos entre quem estava fora. Isso não é acidente, é arquitetura. Toda a engenharia regulatória do mercado de capitais, com seus formulários, suas divulgações obrigatórias, suas janelas de silêncio, foi montada com a promessa de equalizar informação entre insider e outsider. E o que se vê, na prática, é que o insider continua vendendo no topo enquanto o outsider continua comprando na esteira do release positivo. A regulação criou a ilusão de simetria; a natureza humana continuou fazendo o serviço dela.

E aqui entra o que ninguém enxerga, porque exige olhar duas casas adiante do fato consumado. Cada venda como essa alimenta um sistema onde o executivo é remunerado em opções e ações, exerce essas opções quando o papel sobe, e transfere o risco para o cotista médio que comprou o hype. O trabalho dele deixou de ser criar valor para a companhia e passou a ser criar percepção de valor até a próxima janela de exercício. Isso muda tudo. Muda o horizonte das decisões, muda o apetite por risco, muda a forma como o balanço é maquiado, muda o incentivo para engordar recompra de ações em vez de investir em pesquisa. E ninguém escreve sobre isso porque exigiria criticar o próprio ecossistema que paga as contas do noticiário econômico.

O curioso é que, num mundo onde qualquer camelô de esquina precisa emitir nota fiscal para vender pastel, o executivo de multinacional descarrega duzentos mil dólares em ações e a única obrigação dele é preencher um formulário eletrônico depois do fato. A assimetria de tratamento entre o cidadão comum e o insider corporativo é tão gritante que virou paisagem, e paisagem ninguém questiona. O sujeito que vende quentinha na porta da fábrica é fiscalizado, tributado e perseguido; o sujeito que vende papel da fábrica lá de dentro é parabenizado pela liquidez do movimento. Chame isso de mercado livre e o cinismo se completa.

Fica a lição, para quem quiser aprendê-la sem pagar mensalidade de MBA. Quando o executivo vende, olhe o que ele sabe e você não sabe. Quando o comunicado é neutro, olhe o que ele omite. Quando o noticiário reproduz o release sem uma pergunta sequer, olhe quem paga o anunciante da página ao lado. E quando alguém lhe disser que o mercado é eficiente, pergunte para quem. Porque para quem está saindo, sempre foi. Para quem está entrando, quase nunca é.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.