O presidente do Supremo desmarcou, na última hora, a reunião que teria com a cúpula da Ordem dos Advogados do Brasil para discutir a tal crise da Corte. Traduzindo o comunicado protocolar para a língua dos mortais, o ministro que preside o tribunal mais poderoso da República não tem tempo, hoje, para ouvir a entidade que, teoricamente, representa os profissionais que atuam diante dele. O gesto é pequeno na aparência e enorme no significado, porque revela o organograma real do país, aquele que não está na Constituição e que ninguém ousa desenhar em sala de aula. Quem manda avisa; quem obedece espera.
É preciso reparar na coreografia. Existe uma crise, admitida em surdina pelos próprios protagonistas, e a resposta institucional consiste em marcar café, desmarcar café, remarcar café. A OAB, essa autarquia corporativa que cobra anuidade compulsória de mais de um milhão de bacharéis e vive de vender a ficção de que fiscaliza o Judiciário, aparece com o pires na mão pedindo audiência. Do outro lado, o senhor de toga responde com o clássico gesto do funcionário público que se sabe intocável, deixa para amanhã. E amanhã, sabemos, é sempre depois das eleições, depois do recesso, depois da próxima manchete.
Convém lembrar de onde vem o dinheiro que sustenta esse teatro. O tribunal que hoje adia reuniões torra, todo ano, um orçamento que ultrapassa um bilhão de reais, pago pelo pedreiro que compra cimento com imposto embutido, pela dona de casa que paga tributo até no papel higiênico. A Ordem, por sua vez, arranca compulsoriamente milhares de reais anuais de cada advogado, sob pena de proibi lo de trabalhar. Duas corporações vivendo de confisco encontram se para discutir a crise que elas mesmas produziram, e quando uma resolve dar plantão, a outra volta para casa. O contribuinte, esse otário universal, pagou o café das duas partes e não foi convidado.
A lógica é implacável, ainda que ninguém queira encará la. Se há crise, ela tem causas concretas, decisões monocráticas transformadas em legislação, inquéritos que nascem e morrem no mesmo gabinete, censura reembalada como combate à desinformação, prisões decretadas por opinião publicada em rede social. Nada disso é abstração filosófica, é rotina forense documentada em acórdão. Quem provoca a crise é quem exerce o poder sem freio; quem tem o dever de contê lo é quem se cala em troca de sustentações orais mais amistosas. O adiamento de uma reunião entre cúpulas não é acidente de agenda, é a confissão de que o assunto será tratado em jantar reservado, longe do olhar do sujeito que financia a festa.
Há algo de cômico e de sinistro em ver a suprema instância do país tratando a advocacia oficial como fornecedor que ficou de retornar a ligação. Se a Ordem realmente fosse a guardiã da Constituição que jura ser em seus manifestos anuais, não pediria audiência, exigiria providências, ajuizaria ações, denunciaria abusos com nomes, sobrenomes e números de processo. Mas a Ordem quer cadeira cativa, quer indicação para vaga, quer a próxima nomeação, e por isso aceita ser desmarcada como criada de servir. O silogismo se fecha sozinho, quem depende do rei não decapita o rei, no máximo espera que o rei o receba na próxima quarta.
No fim, a notícia é a própria notícia. Não interessa o dia em que o encontro vai ocorrer, nem a nota conjunta cheia de gerúndios que será publicada depois. Interessa que dois monopólios sustentados por dinheiro alheio combinaram, à vista de todos, que a crise da Corte será resolvida entre eles, sem plebe, sem imprensa incômoda, sem prestação de contas. O rei está nu, a Ordem finge que está bem vestido, e o país paga a conta da alfaiataria imaginária. Adiar a reunião foi, no fundo, o único ato de sinceridade da semana.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.