Depois que a Jane Street engoliu prejuízo bilionário em uma aposta que deu errado, o Federal Reserve e o Banco da Inglaterra resolveram fazer o que deveria ser rotina: perguntar aos bancos que regulam quanto de crédito, alavancagem e exposição direta cada um deles carrega diante das firmas de proprietary trading. A pergunta é honesta, o momento é vergonhoso. Ninguém abre a caixa de ferramentas depois que o telhado desabou e chama aquilo de manutenção preventiva; chama de constrangimento institucional maquiado de zelo técnico.

O ponto que nenhum comunicado oficial vai dizer com todas as letras é que o regulador só descobriu que precisava olhar para aquele quintal porque o quintal pegou fogo. Enquanto a Jane Street e suas pares vinham operando com múltiplos de alavancagem que fariam qualquer gerente de banco de bairro perder o sono, o mesmo sistema que hoje se preocupa passava boletos, aprovava linhas e ampliava contrapartes. O que se vê agora é a investigação; o que não se vê é a década de omissão que precedeu a investigação, e é justamente aí que mora a fatura que ninguém quer somar.

Siga o dinheiro e a coreografia fica escancarada. Firmas de trading tomam crédito de bancos grandes, bancos grandes operam sob garantia implícita do banco central, e o banco central existe em última instância porque o contribuinte paga a conta quando o cassino financeiro tropeça. Ou seja, cada aposta de bilhão feita numa mesa de Manhattan ou de Londres tem, escondido no rodapé do contrato, a assinatura involuntária do assalariado que nem sabe o que é um swap. A privatização do lucro e a socialização do prejuízo não é figura retórica, é modelo de negócio.

Existe ainda a hipocrisia da linguagem. Chamam de "revisão prudencial" o que é confissão tardia. Chamam de "mapeamento de exposição" o que qualquer contador de padaria chamaria de descobrir tarde demais para quem se emprestou dinheiro. O aparato regulatório cresce, se sofistica, contrata PhD, publica working paper, e mesmo assim é sistematicamente surpreendido pelos mesmos padrões que se repetem desde 1998, desde 2008, desde toda vez que alguém alavancou demais uma tese esperta em cima de crédito farto. A pretensão de que basta um regulador mais atento para domar o ciclo é a mesma pretensão que produziu o ciclo.

E aqui entra a parte que quase ninguém tem estômago para dizer. O problema não é a Jane Street ter perdido, é que ela perdeu operando com dinheiro barato fabricado por décadas de juros artificialmente baixos, política monetária expansionista e liquidez infinita jogada em cima do mercado como se fosse água em incêndio. Sem a impressora ligada em Washington e em Londres, aquela aposta nem existiria naquele tamanho. O regulador que agora se assusta é sócio silencioso do risco que finge combater; a mão que aperta o crédito é a mesma que o afrouxou, e ninguém no comitê parece ver contradição no espelho.

No fim, o cidadão comum vai ouvir que "o sistema foi resiliente", que "as salvaguardas funcionaram", que "a lição foi aprendida". Já ouviu isso antes, vai ouvir de novo, e continuará pagando a conta em forma de inflação, imposto, tarifa bancária e poder de compra corroído. Não existe almoço grátis para o banco de investimento, existe janta paga pelo padeiro. Enquanto a fábrica de crédito ficcional continuar operando sob complacência regulatória, o próximo susto já está sendo gestado numa mesa que hoje ninguém está olhando, e amanhã virá o próximo comunicado dizendo, com cara séria, que decidiram investigar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.