Repare no detalhe curioso: no meio do noticiário sobre novas alíquotas, novas agências reguladoras e novas cruzadas sanitárias, o que viraliza é uma dona de casa colocando cravo da Índia e alecrim para ferver numa panela velha. Não há patrocinador, não há selo, não há certificação com carimbo de três ministérios. Há apenas água, duas plantas e o resultado que qualquer nariz honesto reconhece em trinta segundos. O cheiro toma a casa, a cozinha vira templo, e por um instante o cidadão esquece que precisa autorização do fisco até para respirar.
Convém lembrar que o cravo da Índia foi, durante séculos, moeda mais desejada que ouro. Impérios inteiros se digladiaram por aquele pequeno botão seco, arquipélagos foram invadidos, monopólios foram decretados sob pena de morte, holandeses queimaram plantações inteiras para manter o preço lá em cima. Toda essa violência histórica pela especiaria que hoje custa oito reais no mercado da esquina. Isso, meu caro leitor, é o que a livre concorrência faz quando ninguém está segurando a espada em cima do produtor. O que era luxo de rei virou tempero de arroz.
O alecrim segue a mesma escola. Cresce em qualquer canteiro, resiste ao sol, dispensa fertilizante caro e ainda serve para carne, chá, banho, aroma e mezinha de avó. É a antítese perfeita do modelo que nos vendem todos os dias: aquele em que qualquer solução precisa ser cara, complicada, importada, chancelada por três especialistas e financiada por linha de crédito subsidiada. A planta cresce sozinha, o resultado é imediato, e não há um único burocrata capaz de faturar comissão em cima.
Aí está o incômodo silencioso dessa moda simplória. Cada panela fervendo cravo e alecrim é uma pequena secessão doméstica. É o sujeito recusando o difusor elétrico de trinta reais, o refil químico de outros quinze, a vela aromática importada com nome francês e o aromatizador de ambiente que promete eucalipto mas cheira a produto de limpeza barato. Enquanto o consumidor descobre que a solução estava no armário, a indústria do supérfluo perde cliente, o varejo perde margem, e o arrecadador perde imposto sobre valor agregado. Ninguém fala isso em voz alta, claro. Mas a matemática não mente: o que se resolve com dois reais de tempero não gera nota fiscal de cinquenta.
Há também o aspecto que ninguém tem coragem de nomear. Numa era em que se decreta o que se pode comer, o que se pode dizer, qual o remédio permitido e qual está proibido, ferver planta em casa é dos últimos gestos verdadeiramente soberanos que restam ao brasileiro. Não precisa receita, não precisa aprovação de agência, não precisa aval de influenciador pago. Basta abrir a janela, encher a panela e deixar o vapor fazer o serviço que nenhuma política pública jamais fez, que é entregar bem estar real, imediato e sem contrapartida.
Recomenda-se, evidentemente, o mínimo de bom senso. Panela no fogo pede vigilância, água evapora, cabo esquenta, criança curiosa mete a mão. Isso é responsabilidade individual, não desculpa para o próximo secretário municipal inventar cadastro obrigatório de fervedores caseiros de especiaria. Se um dia inventarem, e conhecendo o zelo com que legislam sobre o alheio, um dia hão de inventar, o leitor saberá exatamente quem paga a conta e quem recebe o cheque. Enquanto esse dia não chega, deixe o cravo dançar com o alecrim, encha a casa de aroma e sorria: por hora, ainda é de graça.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.