A cena, registrada em relatório da Polícia Federal, tem a delicadeza estética de um quadro de bufões flamengos. Um filho de presidente, ele próprio senador e candidato de si mesmo, envia figurinha adesiva do ex mandatário americano pelo WhatsApp para confirmar reunião com o dono do Banco Master, aquele mesmo cujo balanço virou piada nacional e cuja carteira de títulos podres ameaça um rombo que, no fim, alguém sempre paga. Adivinhe quem. Não é o banqueiro, não é o senador, não é o americano da figurinha. É você, contribuinte anônimo, cuja carteira funciona como fundo garantidor universal das amizades palacianas alheias.
Existe algo de profundamente instrutivo na escolha do adesivo. Não foi um bom dia enviado por educação, não foi uma ligação por deferência, não foi um recado por assessor. Foi figurinha. O idioma emocional dos adolescentes em grupo de escola, agora convertido em protocolo diplomático entre um herdeiro político e um banqueiro que negocia salvamento. Se a forma revela o conteúdo, e a forma sempre revela o conteúdo, o que temos aqui é a confissão involuntária de que a política brasileira opera na régua mental do recreio. A diferença é que no recreio ninguém sai com o CNPJ garantido pelo Tesouro.
Sigamos a trilha, porque ela é curta e cheira mal. De um lado, um banqueiro cuja instituição vinha empilhando papéis exóticos e prometendo rentabilidade que desafiava a aritmética elementar; de outro, um agente político com trânsito nas duas casas do Congresso, capaz de pautar CPI, calibrar relator, ligar para ministro, sussurrar em ouvido de regulador. No meio, a promessa tácita de que quando o balanço estourasse, e todo balanço assim estoura, haveria voluntários dispostos a empurrar a fatura para o colo do Fundo Garantidor de Crédito, isto é, para o colo dos demais bancos, que por sua vez repassam ao correntista via tarifa, spread e imposto embutido no crédito. A engenharia é velha. O banqueiro imprudente privatiza o lucro do risco e socializa o prejuízo pela via da regulação amiga. O político garante o guarda chuva. O eleitor bate palma achando que a briga é ideológica.
Convém lembrar que os grandes crashes bancários da história moderna nunca começaram no caixa. Começaram na antessala, no jantar, no bilhete lacrado, na visita discreta ao gabinete. O escândalo do Banco de Nápoles no fim do século dezenove, os affairs franceses da Terceira República, os cofres suíços que abrigavam correspondência de ministros: tudo obedece à mesma coreografia. Primeiro vem a intimidade suspeita entre quem regula e quem é regulado; depois vem o socorro emergencial travestido de defesa da estabilidade sistêmica; por fim vem a nota conjunta explicando que tudo foi feito dentro da lei, e a lei, veja só, foi escrita pelos mesmos personagens. A figurinha do Trump é apenas a versão emoji desse ritual milenar.
Há ainda o detalhe delicioso do padrinho importado. O adesivo do político estrangeiro funciona como brasão heráldico numa república que se pretende soberana. É a confissão de que a legitimidade, para certa direita cortesã, não vem do voto do brasileiro comum, vem do carimbo alheio. Simetricamente, a esquerda cortesã beija anéis em outros portos, e o resultado é o mesmo: o cidadão que paga imposto para sustentar essa opereta descobre, tarde demais, que jamais foi o dono do teatro, sempre foi apenas o bilheteiro obrigado. Um povo que aceita ser representado por figurinha adesiva merece o preço da entrada que cobrarão dele amanhã, e cobrarão com juros compostos.
Resta a pergunta que abre e fecha toda análise honesta destes arranjos: quem paga e quem recebe. Recebem o banqueiro que compra proximidade, o político que monetiza influência, o burocrata que se antecipa ao próximo emprego no setor privado regulado. Paga o sujeito que acorda cedo, produz alguma coisa útil, entrega metade do que ganha em tributo, e ainda é chamado de extremista quando desconfia da santa aliança entre o balcão e o gabinete. A figurinha era piada. A conta é séria. E ela chega, sempre chega, endereçada a quem nunca foi convidado para a reunião.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.