O anúncio saiu com aquela pompa de circunstância que só os organismos multilaterais sabem imprimir a uma banalidade. O FMI, sentado à mesa com os ministros das finanças da União Europeia, revelou que a inteligência artificial "pode impulsionar o crescimento, mas também aumentar tensões econômicas". Quer dizer, precisou-se de um exército de doutores, um jatinho fretado e uma sala com bandeirinhas para descobrir aquilo que qualquer padeiro romano já sabia quando viu o primeiro moinho movido a água: toda tecnologia que aumenta produtividade desloca gente, muda preços relativos e mexe com quem estava confortável. Bastava ter lido meia página de história econômica, mas há coisas que só se aprendem em conferência com coquetel.
O que o relatório não diz, e aí mora a graça, é que a tal "tensão econômica" que tanto assusta os ministros não é a do trabalhador que precisa se reciclar, nem a do consumidor que verá bens mais baratos. A tensão que tira o sono do andar de cima é outra: a de perder controle sobre um processo de criação de riqueza que não passa pelo carimbo do funcionário público. A IA é descentralizadora por natureza; um sujeito num apartamento em Lisboa pode hoje produzir com três assinaturas de software o que uma agência inteira produzia há cinco anos. Isso é uma tragédia, sim, mas para quem vive de cobrar pedágio no meio do caminho.
E é exatamente aí que entra o segundo ato da peça, o mais previsível de todos. Toda vez que surge algo novo que gera riqueza sem autorização prévia, os mesmos personagens aparecem com a mesma cara compungida a dizer que precisamos "regular com responsabilidade", "harmonizar impostos", "garantir que os ganhos sejam distribuídos". Distribuídos por quem, cara pálida? Pelo mesmo camarada que gastou trinta anos regulando o setor automotivo europeu até torná-lo incapaz de competir com o chinês? Pelo mesmo que criou o AI Act com centenas de páginas de exigências que nenhuma startup europeia consegue cumprir, entregando o mercado de mão beijada aos gigantes americanos e asiáticos que têm departamento jurídico do tamanho de um ministério?
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais nítida. As "tensões econômicas" que o FMI menciona são, na tradução honesta, a queda das receitas tributárias sobre folha de pagamento à medida que as máquinas substituem o trabalho humano rotineiro. Os governos europeus são financiados majoritariamente por impostos sobre salários e consumo; se a produtividade explode mas o número de assalariados formais diminui, o Leviatã fica anêmico. Daí a urgência em falar de "imposto sobre robôs", "taxação de lucros digitais", "contribuição de solidariedade da IA". A civilização não está em crise, o modelo de arrecadação está. E é sempre o segundo que fantasiam de primeiro.
Há ainda o detalhe delicioso de os europeus, que praticamente não têm um único campeão global em IA, se reunirem para discutir como "gerenciar os benefícios" de uma tecnologia que eles não estão produzindo. É como o freguês do bar debater com autoridade o preço da cerveja que o vizinho fabrica. A Europa perdeu o bonde da internet, perdeu o bonde da nuvem, está perdendo o bonde da IA, e sua resposta reflexiva não é destravar seu mercado interno, cortar a burocracia asfixiante ou baixar a carga tributária que expulsa talento; é montar mais uma cúpula para regular aquilo que ela sequer construiu. É a lógica do sujeito que perdeu a corrida e agora quer redigir as regras do próximo campeonato.
No fim, a lição é a de sempre, apenas repaginada com jargão da moda. Toda inovação genuína começa como promessa, vira ameaça aos rentistas do arranjo anterior, e termina domada por regulação suficiente para que os grandes sobrevivam e os pequenos jamais nasçam. A IA não vai fugir desse padrão a menos que o cidadão comum entenda a jogada antes que ela se consume. Riqueza nova, quando aparece, tem duas trajetórias possíveis: espalhar-se pela sociedade via preços mais baixos e novas oportunidades, ou ser capturada por quem controla o carimbo. Não existe terceira via, por mais que os comunicados oficiais insistam em vendê-la.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.