O editorial de domingo veio com a solenidade de bula papal e a sutileza de um martelo de leiloeiro. Não se pode, sentencia o jornal, misturar as situações do ministro que comanda o inquérito das fake news com o ministro que decidiu, contra o gosto do andar de cima, contrariar a narrativa oficial em votos recentes. Note bem o truque: quando o poder precisa proteger seus prediletos, aparece o argumento da complexidade, da nuance, do caso a caso. Quando precisa esmagar um adversário, tudo vira bloco monolítico, quadrilha, conspiração. A régua tem dois lados, e o lado que mede depende de quem paga a régua.
Vale sempre lembrar a pergunta que desmascara qualquer editorial em papel jornal ou tela reluzente: quem se beneficia desta distinção conveniente? O ministro que virou celebridade midiática, que ordena buscas, bloqueios e prisões em regime de plantão, precisa desesperadamente que sua figura permaneça isolada de escândalos correlatos. Se um colega de toga é jogado às feras por questões patrimoniais, o outro precisa ser blindado com o argumento de que seu caso é de outra ordem, mais nobre, mais institucional, mais civilizatório. A blindagem editorial funciona como muralha de castelo medieval, só que construída com tinta e verniz retórico em vez de pedra.
A lógica é rasteira e não sobrevive a três minutos de análise honesta. Se ministros da mais alta corte devem responder por suas condutas, respondem todos, ponto final. Se conduta patrimonial de um justifica escrutínio, conduta processual e política de outro justifica escrutínio equivalente, porque ambos manejam o mesmo tipo de poder monopolista contra o cidadão comum. Separar os casos é aceitar que existe uma casta acima e uma casta ainda mais acima. O jornal não está explicando nada, está distribuindo carteirinhas de imunidade conforme sua simpatia editorial. Isso não é jornalismo, é despachante de indulgências.
Convém observar quem financia o barco desta imprensa que se apresenta como voz da razão civilizada. Verbas de publicidade estatal, contratos de assinatura de órgãos públicos, patrocínio de estatais e bancos oficiais, editais de fomento e programas de checagem custeados por institutos com dinheiro do contribuinte de forma direta ou indireta. Quando o jornal defende o ministro que persegue críticos do governo, ele não está defendendo abstração jurídica alguma, está defendendo o ecossistema que lhe garante planilha positiva no fim do mês. Ninguém morde a mão que assina o cheque, e o cheque, sempre o cheque, sai do bolso do sujeito que trabalha, produz e paga imposto para financiar o próprio silenciamento.
Há algo de cômico e sinistro em ver o veículo pregando a separação analítica dos casos justamente no momento em que a opinião pública começa a enxergar o padrão. O padrão é simples e antigo como a corrupção romana: togas se protegem, canetas amigas alisam, e o povo paga o espetáculo. Quando todos os grandes órgãos concordam em uníssono sobre qual escândalo importa e qual escândalo é ruído, é sinal quase infalível de que a fila foi organizada nos bastidores. Consenso midiático fabricado costuma ser o disfarce mais eficaz de interesse costurado.
No fim das contas, a régua verdadeira é grosseira e não precisa de editorial: um dos ministros é útil ao projeto de poder que sustenta o modelo atual, o outro é dispensável ou até incômodo. Um pode ter o que tiver que os holofotes serão apagados na hora certa, o outro pode ter o que tiver que os holofotes serão acesos com filtro cirúrgico. Não misturar os casos, nesta gramática, significa não misturar quem manda com quem obedece, não misturar quem é da casa com quem visita. E quem paga a conta dessa arrumação toda continua sendo o mesmo de sempre, o pagador silencioso que sustenta togas, redações e a ilusão de que existe justiça equânime numa república onde a régua tem dono.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.