Olha, é curioso o ritual. Uma farmacêutica anuncia que sua nova molécula para diabetes tipo 2 passou no teste cardiovascular, o mercado aplaude, os analistas atualizam preço-alvo e a imprensa especializada reproduz o release quase palavra por palavra. Foundayo, da Eli Lilly, demonstrou em estudo que não aumenta risco cardíaco em pacientes diabéticos, e isso virou notícia como se fosse descoberta digna de prêmio. Só que segurança cardiovascular não é feito heroico, é obrigação regulatória mínima imposta pela FDA desde 2008 depois do escândalo do Avandia. A empresa cumpriu uma exigência básica e transformou isso em campanha de marketing travestida de ciência. Aplaudir é como bater palma para o padeiro por não colocar veneno no pão.

Me diz uma coisa, quem paga essa conta? O preço de tabela de terapias equivalentes da Lilly nos Estados Unidos hoje flerta com mil e duzentos dólares por mês. No Brasil, quando desembarcar, vai chegar via lista do Ministério da Saúde ou incorporação pela Anvisa com pressão da indústria para inclusão no SUS, e o cidadão que nunca vai tomar o remédio vai financiar pelo imposto o tratamento subsidiado de milhões que poderiam controlar a glicemia com dieta, caminhada e metformina genérica de vinte reais o mês. A engenharia é sempre a mesma: privatizam o lucro do lançamento e socializam o custo do consumo. E o povo, anestesiado, chama isso de progresso.

Existe uma pergunta que a manchete não faz e que revela o esqueleto do negócio. Por que a Lilly precisou provar segurança cardiovascular? Porque a classe de fármacos onde Foundayo se encaixa, os análogos e derivados que atuam sobre incretinas e afins, moveu bilhões nos últimos três anos empurrada pela onda dos Ozempic da vida. A corrida é para capturar mercado antes que as patentes originais caiam, antes que os genéricos apareçam, antes que a China entregue biossimilares por um décimo do preço. Cada estudo cardiovascular positivo é uma trincheira legal e comercial, não uma cruzada pela saúde da humanidade. Segue o dinheiro e a nobreza do discurso evapora.

Tem ainda o detalhe que ninguém quer olhar de perto: os grandes ensaios clínicos dessas moléculas são financiados pela própria fabricante, conduzidos por centros de pesquisa que dependem do dinheiro da fabricante, publicados em revistas cujos anúncios são pagos pela fabricante e comentados por especialistas que dão palestras remuneradas pela fabricante. Não é conspiração, é o modelo vigente e transparente. O problema é que o cidadão comum lê o resultado como se fosse veredicto de tribunal imparcial, quando é parecer de advogado da parte interessada. A ciência séria existe, mas não confunda o método com o pacote de mídia que a indústria embrulha em cima dele.

Há também a discussão que a esquerda sanitarista adora esconder e a direita sonolenta se recusa a fazer. O diabetes tipo 2 é, na esmagadora maioria dos casos, doença de estilo de vida. Excesso de carboidrato refinado, sedentarismo, obesidade visceral, sono ruim. Trata-se, em regra, de um problema comportamental que virou mina de ouro farmacológica porque é mais fácil vender injeção mensal do que convencer alguém a largar o refrigerante. O Estado entra financiando o remédio caro em vez de desonerar a comida de verdade, taxa o produtor rural, subsidia o ultraprocessado, e depois banca o tratamento da doença que ajudou a criar. A cerca foi construída assim de propósito, e derrubá-la exige entender por que ela está de pé.

No fim, Foundayo não é vilão, e a Lilly não é quadrilha. São peças previsíveis de um arranjo onde regulador, indústria, mídia e sistema público de saúde formam um ecossistema que se retroalimenta com dinheiro alheio. O contribuinte é o único que não tem cadeira na mesa, e é justamente ele quem paga o jantar. Enquanto isso, aplaude a manchete de que o remédio novo não mata, sem perceber que a métrica de sucesso da civilização virou essa: sobreviver ao tratamento pago com o suor do vizinho.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.