A notícia vazou como sempre vaza esse tipo de coisa, por fontes que nunca aparecem mas sempre acertam. Paris estaria disposta a apoiar o holandês Klaas Knot para o comando do Banco Central Europeu, desde que, em troca, o cargo de economista-chefe da instituição fique com um francês. Traduzindo do diplomatês para o português de gente: o poder monetário de todo um continente, que decide o valor do salário de um metalúrgico português e da aposentadoria de um alemão, está sendo negociado como se fosse a divisão de secretarias numa coalizão de câmara municipal.

Chama a atenção o descaramento do arranjo. Um banco central, na mitologia oficial, é uma instituição técnica, independente, blindada da política, guiada exclusivamente por modelos econométricos e pela sagrada estabilidade de preços. É o que ensinam nos livros, é o que repetem os comentaristas de terno, é o que o cidadão assina embaixo quando aceita que uma dúzia de doutores decida a taxa de juros sem consultar ninguém. Só que a cortina cai de vez em quando, e quando cai, mostra o palco por trás: dois governos negociando cadeiras, países exigindo compensações, capitais europeias fazendo cálculo de influência como quem divide loteamento.

Vale lembrar por que essa poltrona vale tanto. O economista-chefe do BCE não serve café. É a pessoa que redige os pareceres que justificam se a Europa vai ter juros altos ou baixos, se a impressora liga ou desliga, se a dívida italiana continua sendo comprada disfarçadamente ou se o sul da Europa apanha para conter a inflação. Cada vírgula desses relatórios move trilhões, e cada trilhão movido tem beneficiário. Não existe decisão monetária neutra; existe decisão monetária que ajuda alguém e prejudica outro alguém. Paris entendeu isso há décadas. Berlim entendeu antes. O contribuinte europeu ainda finge que não.

Há um detalhe delicioso na escolha de Knot. Holandês, tradicionalmente da ala mais dura, aquele grupo de banqueiros centrais que ainda finge acreditar em disciplina fiscal e em não jogar dinheiro do helicóptero. Pois é justamente por isso que Paris o aceita. Um presidente de perfil rígido no topo, com discurso de austeridade e sobrancelha franzida, dá a cobertura política perfeita para que a máquina real da política monetária, aquela que mora nos andares abaixo, siga fazendo o que sempre fez: financiar dívida pública, socorrer governo em apuros, comprar título soberano com dinheiro que ninguém depositou. É o velho truque, o rosto sério na capa, a bagunça generosa no miolo.

Quem paga essa conta você já sabe. Não é o burocrata que ganha em euro corrigido, não é o político francês que negocia a cadeira, não é o banqueiro alemão que já vendeu seus títulos antes da próxima rodada de compras. Quem paga é o padeiro de Nápoles vendo o preço da farinha subir sem entender por quê, é o pensionista espanhol que compra menos com a mesma cédula, é o trabalhador polonês descobrindo que sua poupança encolheu no silêncio. A inflação nunca é acidente meteorológico. Tem endereço, tem impressora, tem assinatura. E agora, ao que tudo indica, terá também nacionalidade francesa no cargo que rabisca os pareceres.

O mais engraçado, ou trágico, dependendo do humor do leitor, é que tudo isso é apresentado ao público como negociação institucional saudável, equilíbrio entre países-membros, arranjo civilizatório da grande família europeia. Quando reis medievais dividiam terras e casavam filhas para selar aliança, ao menos tinham a honestidade de chamar aquilo de tratado dinástico. Hoje se chama governança monetária multilateral, se veste com terno de linho italiano e se apresenta em coletiva com PowerPoint. A rapina é a mesma, só melhorou o marketing.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.