A notícia chegou embrulhada em papel de presente técnico, como sempre chegam essas coisas. A FTSE Russell, uma das três grandes provedoras globais de índices, abriu consulta pública para avaliar se a exposição à inteligência artificial deve ser tratada como fator de risco ESG no setor de tecnologia. Consumo energético dos data centers, uso de água, viés algorítmico, deslocamento de mão de obra, riscos de privacidade, tudo entra na sopa. E quem vai decidir o que sai da panela? Um comitê. Sempre um comitê. Nunca você, nunca o mercado, nunca o dono do capital que aplicou suas economias num fundo passivo achando que estava comprando a economia real e não uma cesta filtrada pelo humor moral de meia dúzia de analistas em Londres.
Olha, quando alguém cria um índice, está fazendo algo aparentemente inocente, apenas medindo. Só que no capitalismo financeiro contemporâneo, trilhões de dólares seguem esses índices mecanicamente via ETFs e fundos passivos. A empresa que sai do índice sofre saída forçada de capital, independentemente de estar dando lucro, gerando emprego ou entregando valor ao consumidor. Ou seja, quem controla a régua controla o fluxo. E quem controla o fluxo, controla quem cresce e quem morre. É a definição clássica de um poder que ninguém elegeu, ninguém autorizou e ninguém pode contestar no varejo.
O truque é sempre o mesmo. Cria-se uma sigla nobre, no caso ESG, ambiental, social e governança, veste-se de ciência, contrata-se consultoria com PhD, e pronto, está montado o tribunal moral privado que decide quais atividades produtivas merecem existir. O detalhe cômico é que os mesmos que hoje querem punir empresas de IA por gastar energia são os que ontem exigiam que essas empresas migrassem para energia limpa, e anteontem os que exigiam que investissem em pesquisa de ponta. A régua muda, o comitê fica. E cada nova régua exige nova camada de consultores, auditores, certificadoras e departamentos internos de compliance. Um andar inteiro de gente vivendo de vender indulgência corporativa.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Quem lucra com a métrica ESG virando obstáculo para tecnologia? Primeiro, as próprias provedoras de índice, que cobram das empresas para serem avaliadas e das gestoras para acessar os dados. Segundo, o exército de consultorias que vive de traduzir compliance em relatório. Terceiro, os concorrentes menos eficientes, que usam a régua moral para punir quem os está superando no mercado real. É capitalismo de compadrio com verniz de virtude. Uma empresa que quebra no mérito reclama para o comitê, e o comitê inventa uma nova métrica que, coincidentemente, prejudica quem estava ganhando. Sempre foi assim, desde as corporações medievais que impediam artesãos livres de operar sem licença do grêmio.
E o que não se vê, essa é a parte que ninguém coloca no prospecto. Cada empresa punida por exposição à IA é uma empresa que vai contratar menos, investir menos em pesquisa, pagar menos dividendos ao aposentado que confiou seu fundo de pensão a um gestor passivo. Cada dólar que deixa de fluir para a fronteira tecnológica é um dólar que não vira produtividade, não vira remédio novo, não vira computação mais barata para o pequeno empresário do Piauí. O custo aparece diluído em décadas, invisível, distribuído entre bilhões de anônimos, enquanto o benefício aparece concentrado nos poucos que operam o mecanismo. É a assimetria clássica de toda intervenção. Quem paga é a multidão silenciosa. Quem cobra é o comitê visível.
Me diz uma coisa, desde quando a decisão sobre qual tecnologia a humanidade deve desenvolver cabe a um provedor de índice financeiro? Se a inteligência artificial é boa ou ruim, se consome muita ou pouca energia, se substitui empregos ou cria novos, essa é uma pergunta que o mercado responde continuamente, com bilhões de pequenas decisões de bilhões de pessoas que compram, contratam, investem ou boicotam. Terceirizar essa resposta para um comitê é, no fundo, admitir que não se confia no julgamento livre dos indivíduos. E quando um sistema deixa de confiar nos indivíduos, ele já não é livre; é apenas ainda não abertamente autoritário. O ESG começou como sugestão, virou padrão, e agora quer virar filtro obrigatório. Amanhã será lei. Depois de amanhã será crime discordar. Sempre foi esse o caminho, e quem tem olhos para ver, viu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.