Abrem os pregões americanos com futuros em alta e a manchete quer que você acredite que o motivo é nobre, uma cúpula entre Estados Unidos e China para destravar o comércio global e uma suposta contenção diplomática com o Irã. Traduzindo do dialeto das mesas de operação para o português dos mortais, o que subiu foi a expectativa de que dois governos que passaram a década inteira se hostilizando vão fingir cordialidade por algumas horas diante das câmeras. E o mercado, treinado como cachorro de Pavlov, saliva no primeiro sino.

Olha, quem acompanha o teatro há tempo suficiente sabe que cúpula entre superpotências não resolve absolutamente nada de estrutural, resolve o gráfico do dia. As tarifas continuam onde estão, os subsídios industriais chineses continuam operando a todo vapor, o complexo militar americano continua faturando com cada tensão renovada no Estreito de Ormuz, e o pequeno investidor continua achando que compreende macroeconomia porque leu três parágrafos no Investing. Quer dizer, se um aperto de mão fosse suficiente para consertar dez anos de guerra comercial e cinquenta anos de sanções contra Teerã, teríamos resolvido a Guerra Fria com um jantar em Camp David.

O que ninguém aponta é quem lucra com o ruído. Bancos de investimento posicionados em derivativos de volatilidade adoram uma manchete geopolítica, porque cada oscilação de meio ponto no S&P vira comissão de corretagem, taxa de administração de fundos de hedge e bônus de fim de ano para gerente que não produz absolutamente nada além de mover dinheiro alheio de um lado para outro. A cúpula é o pretexto, a euforia é o produto, e a conta chega depois quando o dólar se aprecia contra o real e o brasileiro descobre que a gasolina subiu de novo por razões que ninguém sabe explicar direito.

E tem o outro lado, o Irã. A tensão com Teerã não é bug, é feature do sistema. Uma potência regional isolada por sanções que empobrecem a população civil mas enriquecem a elite militar iraniana, exatamente o efeito colateral que qualquer manual honesto de economia previu décadas atrás. Sanção econômica é imposto sobre o povo do país adversário, cobrado pelo governo do país que impõe, e revertido em subsídio implícito para o regime que se pretendia derrubar. É a mesma lógica falida do embargo cubano estendida ao Oriente Médio, com a diferença de que aqui há petróleo suficiente para movimentar o preço do barril e, por consequência, o custo de vida do trabalhador em São Paulo.

O investidor brasileiro que abre a corretora de manhã e vê o Ibovespa acompanhando a alta de Nova York precisa entender que não está participando de festa alguma. Está sendo carona involuntária num carro dirigido por dois motoristas bêbados que se detestam mutuamente, e o combustível é dinheiro impresso pelo Federal Reserve há quinze anos sem contrapartida produtiva real. Cada rali baseado em cúpula diplomática é anestesia antes do procedimento, e o procedimento é sempre o mesmo, ajuste violento de preço de ativos quando alguém finalmente admite que o rei está nu.

A lição que a manchete de hoje esconde é a de sempre. Governos não produzem prosperidade, produzem narrativa. E o mercado que aplaude a narrativa está apenas comprando tempo até a próxima crise que a própria narrativa fabricou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.