O grão que alimenta metade da China e sustenta o superávit comercial brasileiro subiu na madrugada, e a razão não tem nada a ver com clima, safra, produtividade ou demanda genuína. Subiu porque o presidente americano e o presidente chinês combinaram um encontro. É só isso. O preço do que o produtor tira do chão do Mato Grosso agora depende de quem aperta a mão de quem em qual continente, e o pregão trata essa dança como se fosse fenômeno natural, como chuva ou vento.
Pense no absurdo, com calma. A soja é matéria física. Alguém plantou, alguém colheu, alguém carregou no navio. O trabalho está feito, o custo está gasto, o produto existe. E ainda assim o valor daquilo que já foi produzido flutua conforme a disposição de humor de dois governos que decidiram há vinte anos que o comércio entre bilhões de pessoas passaria pela vontade política de meia dúzia. Tarifa aqui, retaliação ali, exceção acolá, e a lavoura brasileira torce para que Xi e Trump conversem bonito no jantar. Se conversarem, subimos. Se brigarem, caímos. E chamam isso de mercado.
Siga o dinheiro, que sempre esclarece. Quem ganha com essa incerteza permanente não é o produtor rural que precisa de previsibilidade para plantar, nem o consumidor final que precisa comer barato. Quem ganha é a intermediação financeira que vive da volatilidade, o operador que aluga o oscilar do preço, o funcionário público que administra o balcão de exceções tarifárias, o lobista que cobra caro por conseguir um assento na sala onde a tarifa será decidida. A cada tarifa nova, uma indústria inteira de consultores, advogados e ex-secretários se ergue para vender acesso ao gabinete. É o comércio que se transforma em corte de reis, onde súditos pedem audiência.
Há uma velha analogia que serve. Nos séculos em que reis controlavam o sal, o pão e o preço do tecido, camponeses viviam pendurados no humor da coroa. Uma boa colheita não bastava, porque o edito real podia confiscar o excedente, fixar preço abaixo do custo ou proibir a venda para o reino vizinho. O trabalho honesto sempre valia menos do que o favor palaciano. Trocamos casacos bordados por gravatas em Davos e chamamos isso de modernidade, mas o esquema é idêntico. O produtor de Sorriso continua súdito, e o rei agora atende por outros nomes.
O mais grotesco é que o próprio produtor comemora quando a cotação sobe por acordo diplomático, sem enxergar que aceitou trocar a soberania do preço pela roleta da geopolítica. O valor do que ele planta deveria refletir apetite real, produtividade real, escassez real. Reflete, em vez disso, uma tabela de humor entre dois impérios que gastam mais em drone do que em plantio. Quando o preço sobe por decreto informal, ele também cai por decreto informal, e a próxima manhã pode desmontar a fortuna acumulada na anterior. É volatilidade fabricada, não descoberta.
Enquanto a imprensa econômica celebra a alta como sinal de esperança e os analistas de banco correm para revisar projeções, o essencial passa despercebido. Um mundo com comércio genuinamente livre não teria pauta de reunião entre chefes de Estado sobre grão, porque o grão iria de onde é abundante para onde é escasso sem pedir licença. A existência mesma dessa reunião é a prova de que perdemos algo, e cada aplauso à alta é aplauso à corrente que segura o pescoço da lavoura. O mercado agradece o afrouxo momentâneo do nó, esquecendo que o nó nunca deveria estar ali.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.