A GAC Group fechou acordo com a FAW Group para entrar numa joint venture, e o comunicado corporativo veio embrulhado naquele vocabulário asséptico que a imprensa financeira adora reproduzir sem perguntar nada. Sinergias, escala, competitividade internacional, o pacote inteiro. O detalhe que ninguém coloca em manchete é que estamos diante de duas empresas estatais chinesas, cada uma com o Partido Comunista sentado no conselho, fazendo o que na China se chama de fusão e no resto do mundo se chamaria de cartel patrocinado pelo governo.
Quer dizer, imagine por um segundo que a Petrobras anunciasse uma joint venture com os Correios para dominar o mercado global de logística energética. O escândalo tomaria conta de duas semanas de jornal. Mas quando é chinês, vira caso de estudo em Harvard, matéria elogiosa em portal de investimento, e analista de banco recomendando exposição ao setor. A diferença não está na natureza do arranjo, está na docilidade do observador ocidental diante de qualquer coisa que venha carimbada como estratégia industrial de longo prazo.
Siga o dinheiro e a fábula desmonta sozinha. A FAW é braço direto do Estado chinês desde 1953, quando ainda se chamava First Automobile Works e produzia caminhões copiados dos soviéticos. A GAC nasceu em Guangzhou como veículo do governo provincial, cresceu com subsídio, prosperou com barreira tarifária e agora exporta carros elétricos a preços que nenhuma montadora ocidental consegue praticar porque nenhuma montadora ocidental tem Tesouro por trás bancando a diferença. Isso não é competitividade, é dumping industrial disfarçado de milagre asiático.
O que se vê é o carro chinês barato chegando ao porto de Santos, ao porto de Roterdã, ao porto de Long Beach, e o consumidor comemorando o preço. O que não se vê é a indústria automotiva europeia sendo estrangulada, o parque fabril brasileiro apanhando calado, o operário de São Bernardo perdendo o emprego para uma joint venture que só existe porque o Estado chinês decidiu que existiria. Preço baixo hoje, dependência estratégica amanhã, e no dia seguinte o mesmo governo que subsidiou a expansão vai cobrar a conta política.
E aqui mora a piada mais amarga. O Ocidente passou trinta anos pregando abertura de mercado, competição, eficiência via preço, e agora se vê acuado por um adversário que joga o jogo oposto, com planejamento central quinquenal, capital estatal ilimitado e nenhuma pretensão de fingir que respeita as regras. Enquanto isso, o Brasil discute se deve ou não instalar mais uma fábrica da BYD com incentivo fiscal do governo federal, como se o problema fosse falta de subsídio nosso e não excesso de subsídio deles. Trocamos o operário nacional por um cupom de desconto no SUV elétrico da moda.
Toda vez que uma joint venture chinesa é anunciada como notícia de mercado, o mercado deveria ler como notícia geopolítica. Não é empresa negociando com empresa, é braço do Partido negociando com outro braço do mesmo Partido, e o resultado será usado como arma numa guerra comercial que o resto do mundo insiste em fingir que não está acontecendo. Quem confunde consolidação estatal com livre iniciativa vai acordar num mundo onde a livre iniciativa virou peça de museu.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.