Cento e sessenta e quatro bilhões e seiscentos milhões de reais. Este é o valor que o Poder Judiciário torrou em 2025, recorde absoluto desde que existe estatística oficial para constranger os togados. Para efeito de comparação, poderia se comprar quase três vezes o programa Bolsa Família inteiro, ou construir uma malha ferroviária respeitável, ou simplesmente não confiscar essa montanha do bolso de quem trabalha. Mas não. O dinheiro foi para pagar salário, penduricalho, auxílio moradia para quem tem casa, auxílio alimentação para quem come, auxílio livro para quem provavelmente não lê, e aquela coleção infindável de gratificações que na iniciativa privada seriam chamadas pelo nome correto, propina institucionalizada.
O relatório da própria casa, o tal Justiça em Números, confessa sem rubor que a farra cresceu principalmente por causa da folha, que engordou nove por cento em relação ao ano anterior. Nove por cento. Enquanto o brasileiro médio negocia parcela do cartão de crédito e vê o salário mínimo correr atrás da inflação de arroz e feijão, o desembargador reajusta seu contracheque com a naturalidade de quem serve o próprio prato num bufê pago pelos outros. É o único setor da economia onde o cliente é obrigado por lei a comparecer, obrigado por lei a pagar, e ainda por cima é chamado de jurisdicionado, palavra bonita que na prática significa refém.
Siga o rastro do dinheiro e a paisagem fica clara. Cada real que sai daquela sua nota fiscal de padaria, cada centavo descontado do holerite, cada tributo escondido no preço da gasolina, tudo isso deságua num aquário onde nada uma casta que criou para si mesma o privilégio de definir seu próprio orçamento, julgar seus próprios abusos e vetar qualquer tentativa de contenção. É a perfeição do arranjo: quem devia fiscalizar é o próprio fiscalizado. Uma raposa cuidando do galinheiro seria menos audaciosa, porque ao menos a raposa não posa para foto com balança na mão jurando imparcialidade.
A justificativa oficial, quando ela se digna a aparecer, é sempre a mesma cantilena da independência do poder. Independência de quê, exatamente? Do eleitor, com certeza, porque ninguém votou nesses senhores. Da lei orçamentária, evidentemente, porque nenhum outro setor consegue reajuste automático dessa magnitude. Da realidade econômica, obviamente, porque o país cresce dois por cento e a folha do judiciário cresce nove. Independência aqui significa apenas isso, a liberdade soberana de meter a mão no bolso alheio sem prestar contas a ninguém, envolta na aura de solenidade que a beca confere ao gesto vulgar de tomar o que não é seu.
Historicamente, toda vez que uma corporação se blindou dessa maneira, o desfecho foi previsível. Roma teve seus pretorianos que devoravam o tesouro imperial até o dia em que o império já não podia pagá los. A França dos Bourbons manteve uma nobreza togada, chamada noblesse de robe, que comprava cargos hereditários e sangrava o camponês até que o camponês, cansado, inventou a guilhotina. Não é ameaça, é história pura, o tipo de leitura que os magistrados brasileiros trocaram por manual de dogmática processual e assessor de imprensa. Estruturas parasitárias têm data de validade, e ela sempre chega quando o hospedeiro percebe que está sendo devorado.
O silogismo é insultuosamente simples. Um poder que fixa a própria remuneração não tem freio. Um poder sem freio não serve à justiça, serve a si mesmo. Logo, o que se chama de justiça no Brasil é, cada vez mais, o nome elegante de um esquema de transferência de renda dos que produzem para os que julgam. O resto é decoração, martelo de madeira, latim escolar e comunicado institucional. Enquanto o pagador da conta continuar tratando essa aristocracia como sacerdócio intocável, os cento e sessenta bilhões de hoje serão a base modesta a partir da qual se construirá o recorde do ano que vem. O rei está nu, veste toga, e cobra caro pelo espetáculo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.