Goldman Sachs iniciou cobertura da Contineum Therapeutics, uma biotech de estágio clínico que ainda não gerou um centavo de receita recorrente, e o mercado tratou o anúncio como se fosse revelação divina. Basta o carimbo do banco para que fundos, algoritmos e investidores de varejo corram atrás do papel, num ritual que se repete com precisão de relógio suíço toda vez que um grande banco decide "iniciar cobertura" de qualquer coisa. A pergunta que ninguém faz, porque perguntar é deselegante nas mesas de operações, é simples: por que exatamente agora, e por que exatamente esta empresa?

Iniciar cobertura não é ato de caridade intelectual. É produto financeiro. O banco que emite o relatório frequentemente é o mesmo que estruturou a oferta pública da empresa, o mesmo que detém posições relevantes no papel, o mesmo que precisa de liquidez para desovar o que comprou barato antes do resto do mundo saber que a empresa existia. Siga o dinheiro e você vai encontrar, invariavelmente, uma teia de incentivos onde o analista que escreve "comprar" trabalha no mesmo prédio de quem precisa vender. Chamam isso de muralha da China; qualquer pessoa que já passou perto de Wall Street sabe que a muralha tem porta giratória e cafezinho compartilhado.

A Contineum, como boa parte das biotechs de estágio clínico, é uma aposta binária disfarçada de ciência. Ou o composto passa nos ensaios e a ação multiplica, ou fracassa e o papel vira pó. Não há terceiro caminho. O que os relatórios de banco vendem, com gráficos elegantes e projeções em planilha, é a ilusão de que existe análise fundamentalista onde há, no essencial, cara ou coroa com nomes complicados de moléculas. O investidor comum lê "preço-alvo" e acredita que alguém, em algum lugar, sabe. Ninguém sabe. E quem finge que sabe cobra caro pela fantasia.

Há algo profundamente perverso no arranjo em que a mesma instituição que foi socorrida com dinheiro do contribuinte americano em 2008, que pagou bilhões em multas por fraudar clientes com títulos podres, que ajudou a Grécia a maquiar dívida para entrar no euro, agora se apresenta como oráculo confiável sobre o valor futuro de uma farmacêutica experimental. A memória do mercado é curta porque precisa ser. Se lembrasse, ninguém compraria nada de ninguém, e a festa acabaria. O esquecimento coletivo é o combustível do sistema, e os relatórios de cobertura são as fagulhas que reacendem a fogueira toda manhã.

O que se vê é a manchete, o preço-alvo, a alta imediata da ação. O que não se vê é o pequeno investidor que entra no topo confiando na assinatura do grande banco, os fundos institucionais que já estavam posicionados vendendo para ele com lucro, os executivos da biotech exercendo opções, e a máquina inteira funcionando exatamente como foi desenhada para funcionar. Quando o composto falhar num ensaio de fase três daqui a dois anos, e a ação despencar setenta por cento num pregão, ninguém vai reler o relatório inicial de cobertura. O analista terá sido promovido, o banco terá cobrado suas comissões, e o pequeno terá aprendido, mais uma vez, a lição que se recusa a decorar.

A liberdade de mercado pressupõe informação simétrica e responsabilidade de quem opina. Nada disso existe quando gigantes financeiros com licença para errar sem consequência pautam o comportamento de milhões com uma nota de duas páginas. Não se trata de proibir cobertura, se trata de reconhecer o que ela é: peça de marketing sofisticada, vestida de análise técnica, servida com o prestígio de um nome antigo. Comprar Contineum porque Goldman recomendou é como jogar na loteria porque o vizinho garantiu que este é o número certo. A diferença é que a loteria, ao menos, não finge ser ciência.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.