O anúncio veio embrulhado em papel de presente, mas dentro tem carvão. Goldman Sachs, o mesmo banco que historicamente lucra tanto com a euforia quanto com o pânico, agora vem tranquilizar o rebanho: os emissores de cartão de crédito americanos vão superar as previsões de perdas com inadimplência. Traduzindo para o português dos mortais, isso significa que o calote existe, é real, foi precificado, e o único mérito da notícia é que ele será um pouco menor do que o previsto. É como o médico dizer que o tumor cresceu menos do que se esperava e o paciente sair da consulta batendo palmas.

Quem acompanha o ciclo do dinheiro há tempo suficiente reconhece o roteiro. Banco central injeta liquidez por anos a fio, juro artificialmente baixo empurra consumidor para o crédito rotativo, emissor de cartão engorda a carteira com quem nunca deveria ter recebido crédito, e quando a maré vira, apresenta o prejuízo como se fosse fenômeno da natureza. Ninguém pergunta por que existiam tantos limites aprovados para quem ganha salário mínimo. Ninguém pergunta por que a taxa de juros do rotativo americano roça os trinta por cento enquanto o Fed cobra do banco quase nada. A resposta é constrangedora demais para caber num relatório de research.

Siga o dinheiro e a mecânica fica clara. O emissor de cartão empresta dinheiro que não é dele, cobra juro de agiota, empacota a dívida podre e revende no mercado secundário para fundos de pensão de professora aposentada. Quando o esquema começa a rachar, chama o analista amigo do Goldman para dizer que está tudo sob controle, que a perda vai ser menor, que o pior já passou. O sujeito que perdeu o carro porque não pagou a fatura mínima não aparece no gráfico. O casal que refinanciou a hipoteca para quitar cartão tampouco. Estes são os invisíveis da estatística, os que pagam a conta enquanto os visíveis brindam o resultado trimestral.

Existe uma pergunta que ninguém no mercado financeiro tem coragem de fazer em alto e bom som. Se o modelo de negócio depende de emprestar para quem provavelmente não vai pagar, cobrar juros extorsivos de quem consegue pagar, e ser socorrido pelo contribuinte quando o barco afunda, isso não é mercado. Isso é um cassino onde a casa nunca perde porque as regras foram escritas pela própria casa em conluio com o legislador. E a plateia aplaude porque a plateia foi ensinada, geração após geração, que a saúde do sistema financeiro é sinônimo da saúde da economia. Não é. Nunca foi.

A previsão do Goldman é útil, mas não pela razão que os jornais econômicos vão repetir amanhã. Ela é útil porque revela o tamanho da resignação. Já não se discute mais se haverá inadimplência recorde, discute-se apenas se ela será quinze ou vinte por cento acima da média histórica. Já não se pergunta mais por que o consumidor americano está endividado até a alma, pergunta-se apenas se ele aguenta mais um trimestre. Este é o estado da arte do capitalismo de compadrio contemporâneo: administrar a decadência com planilha bem-feita e chamar isso de expertise.

O leitor atento percebe o truque. Quando o banco de investimento diz que as perdas serão menores do que o esperado, o que ele está realmente dizendo é que o esperado era terrível. E quando terrível vira parâmetro de comparação para otimismo, alguma coisa muito séria já se quebrou na cabeça de quem escreve, de quem lê e de quem investe. A conta chega sempre. A única variável é quem paga.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.