A notícia parece pequena, quase técnica, dessas que o leitor apressado pula na tela do celular. Goldman Sachs publica relatório dizendo que a meta de inflação da Hungria é positiva para o forint, a moeda local ganha fôlego, analistas concordam com cara de quem descobriu a roda. Só que, olha, quando um dos maiores bancos de investimento do planeta precisa emitir parecer solene para constatar que um banco central que combate inflação fortalece sua moeda, alguma coisa está profundamente errada com o debate econômico global. É como se um cardiologista precisasse publicar artigo científico provando que fumar dois maços por dia faz mal ao coração.
O caso húngaro é sintomático precisamente porque não deveria ser notícia. Um banco central existe, em tese, para uma única função decente: preservar o poder de compra da moeda que emite. Tudo o mais que lhe atribuem, promover emprego, financiar déficit, comprar título podre de banco quebrado, salvar governo perdulário, é desvirtuamento. Quando Budapeste decide que vai perseguir a meta de inflação com seriedade, o mercado não está reagindo a genialidade nenhuma, está reagindo à raridade. Raridade de banqueiro central que faz o mínimo do seu trabalho em vez de bancar o salvador da pátria com o dinheiro dos outros.
E aqui vale seguir o dinheiro, porque a história é sempre a mesma. Quando o banco central afrouxa, quem ganha primeiro é o governo, que financia gastança sem precisar aumentar imposto de forma visível; ganham os bancos, que recebem liquidez barata para especular; ganham os grandes devedores, que veem sua dívida corroída pela inflação. Quem perde? O aposentado que juntou uma vida inteira, o assalariado que vê o pão dobrar de preço, o pequeno poupador que não tem acesso a derivativo cambial nem consultor de private banking. A inflação é o imposto mais covarde já inventado, porque ninguém votou nele, ninguém o aprovou no Congresso, e o cidadão sequer sabe que está pagando.
O forint sobe justamente porque investidor global, aquele que move trilhões e não tem paciência para narrativa política, entende que moeda estável é pré-condição para qualquer coisa séria acontecer numa economia. Sem âncora monetária confiável, não há cálculo econômico possível, não há investimento de longo prazo, não há poupança, não há contrato que sobreviva a três anos. O empresário vira apostador, o poupador vira trouxa, e o país inteiro entra naquela dança macabra onde todo mundo tenta se proteger da desvalorização e ninguém produz nada de valor real. A Hungria, ao sinalizar que vai levar a meta a sério, está simplesmente dizendo ao mundo que quer voltar a ter uma economia funcional.
Enquanto isso, o Brasil observa de longe, como quem assiste a um filme estrangeiro sem legenda. Aqui a discussão continua girando em torno de aumentar a meta, flexibilizar a meta, dar autonomia formal ao banco central enquanto se pressiona informalmente pelo telefone, chamar o presidente do BC de inimigo quando ele faz o dever de casa. É o oposto exato do que a Hungria acaba de fazer, e o resultado será o oposto exato também: enquanto lá o forint se fortalece, aqui o real segue rezando para que a próxima crise externa não escancare de vez a fragilidade de uma economia que insiste em tratar disciplina monetária como capricho de tecnocrata desalmado.
No fim, a lição húngara é aquela verdade elementar que as elites políticas fingem não conhecer: não existe truque, não existe atalho, não existe imprensa camuflada de estímulo que produza prosperidade real. Ou o governo respeita a moeda, ou a moeda deixa de respeitar o governo. E quando isso acontece, o cidadão comum é quem paga a conta, sempre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.