Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, resolveu abrir o jogo e admitir que a inflação americana talvez exija uma alta de juros mais acelerada do que o mercado vinha precificando. Traduzindo para quem não fala burocratês monetário: o sujeito que passou anos jurando que a inflação era transitória, que a expansão de balanço era prudente, que a impressora de dinheiro estava sob controle, agora vem pedir licença para apertar o cinto do cidadão americano porque os preços insistem em não obedecer aos modelos econométricos do comitê.

Olha, é preciso ter uma dose considerável de desfaçatez institucional para transformar uma confissão de erro em declaração de firmeza técnica. O Fed inundou o sistema financeiro com trilhões de dólares durante a pandemia, financiou déficits fiscais colossais monetizando dívida pública, manteve juros artificialmente comprimidos por tempo suficiente para distorcer toda a estrutura de capital da economia americana, e agora aparece um dos seus diretores dizendo que talvez seja necessário subir juros mais rápido. Quer dizer, o pirômano descobre que a casa está pegando fogo e propõe, com ar grave, jogar mais gasolina de forma controlada.

Me diz uma coisa: quem paga essa conta? Não é o diretor do Fed, com seu salário protegido e sua aposentadoria vitalícia. Não é o banco de investimento que ganhou fortunas com o dinheiro barato dos últimos anos e agora se posiciona para ganhar de novo com a volatilidade dos juros. Quem paga é o trabalhador americano que viu seu salário real derreter, é o pequeno empresário que fez planos com base em juros que o banco central prometeu manter baixos, é o aposentado que teve seu poder de compra corroído silenciosamente enquanto Wall Street brindava com champanhe. A inflação é o imposto mais covarde já inventado, porque ninguém votou nela e ninguém assume a autoria.

O detalhe que ninguém quer comentar é a mecânica do arranjo. O Fed não descobriu a inflação lendo jornal, senhores. O Fed fabricou a inflação. Cada expansão de balanço, cada compra de título do Tesouro americano, cada operação de recompra emergencial foi um voto pela desvalorização do dólar. Agora que a conta chegou, o banco central se apresenta como bombeiro do incêndio que ele mesmo ateou, e o mercado financeiro reage com nervosismo às declarações de um diretor como se estivesse ouvindo profecia divina. É o teatro monetário em sua forma mais acabada, com todos os atores fingindo que não sabiam do roteiro.

O que se vê é o discurso técnico sobre trajetória de juros, curva de Phillips, expectativas ancoradas. O que não se vê é o empobrecimento generalizado da classe média americana, a transferência silenciosa de riqueza dos poupadores para os endividados privilegiados, a destruição de projetos econômicos viáveis por um choque de juros que só é necessário porque houve antes um choque de liquidez irresponsável. Cada ciclo monetário desses deixa uma trilha de falências, de sonhos interrompidos, de famílias reorganizando o orçamento em silêncio, enquanto os arquitetos da bagunça aparecem em entrevistas explicando a próxima virada com a serenidade de quem discute o clima.

O curioso é que continuamos, ano após ano, tratando essas declarações como se fossem ciência exata, como se um comitê de doze pessoas reunido numa sala em Washington pudesse realmente saber qual é o preço correto do dinheiro para trezentos e trinta milhões de americanos. Não sabe, nunca soube, nunca vai saber. O preço do dinheiro, como o preço de qualquer coisa, só emerge da interação real de milhões de pessoas trocando bens, poupando, investindo, arriscando. Quando um comitê fixa esse preço, o resultado é sempre o mesmo: bolha, estouro, ressaca, e o cidadão comum pagando a bebida da festa que não frequentou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.