No dia 30 de agosto, em plena maratona de reeleição, o governador da Bahia subiu tranquilamente num helicóptero que a Polícia Federal já havia catalogado como pertencente ao patrimônio operacional de Augusto Lima, empresário que fez fortuna ao lado de Daniel Vorcaro no antigo Banco Master, aquela instituição que sumiu do mapa deixando um rastro de credores e um buraco que o contribuinte, como sempre, vai acabar tapando. A cena é quase pedagógica: o representante máximo do Estado num território cruza os céus baianos empoleirado num brinquedo caro fornecido, direta ou indiretamente, por quem tinha íntimo interesse em ter o Estado por perto. Ninguém empresta helicóptero de graça, ninguém, exceto para quem detém as chaves do cofre público.
É bom que se relembre o enredo do Master, porque a memória política brasileira tem a durabilidade de iogurte no sol. O banco era um festival de títulos podres vendidos como se fossem ouro, uma engenharia financeira que só sobrevivia enquanto o Banco Central fingia não ver e enquanto instituições públicas garantiam liquidez artificial ao arranjo. Quando o castelo de cartas veio abaixo, quem ficou com o mico não foram os donos, foram os aplicadores comuns e, no fim da cadeia, o cidadão que paga imposto para socorrer o sistema. Os sócios saíram pela porta da frente, com seus jatos, mansões e, aparentemente, helicópteros que ainda circulam prestando favores logísticos a governadores em campanha.
A pergunta que todo motorista de aplicativo baiano, todo pescador do Recôncavo, todo pequeno comerciante que sangra para pagar ICMS deveria estar fazendo é bem simples. Quem paga pela hora de voo? Se foi cortesia do empresário, chama-se propina disfarçada de gentileza, e caberia à Justiça Eleitoral abrir os olhos, se ainda os tivesse abertos para quem usa a camisa vermelha. Se foi pago com dinheiro público, é o povo baiano bancando o marketing eleitoral do próprio algoz. Se foi pago com recursos partidários vindos sabe Deus de onde, aí a trilha do dinheiro fica ainda mais interessante, porque partido político no Brasil é lavanderia com CNPJ. Não existe quarta hipótese honesta, existe apenas a mentira que ainda vão nos contar.
O verdadeiro escândalo, no entanto, não é o helicóptero. Helicóptero é sintoma. O escândalo é a naturalização de uma estrutura em que grandes empresários financiam a manutenção no poder dos mesmos políticos que, uma vez empossados, distribuem crédito subsidiado, socorros bancários, contratos de obra e frouxidão regulatória para os mesmos empresários. É o ciclo perfeito, o moto contínuo da rapinagem legalizada. Numa democracia de mercado que se prezasse, um banqueiro quebrado não teria fôlego para bancar viagem de ninguém, teria sido devidamente moído pelo mecanismo dos preços e pelas perdas privadas. Aqui, ele vira benfeitor cívico, mecenas de campanha, sócio silencioso da próxima gestão.
Chama-se isso de capitalismo no discurso oficial, e é aí que o silogismo estrangula a narrativa. Se capitalismo pressupõe risco privado, e se aqui o risco é sistematicamente socializado enquanto o lucro fica na conta dos amigos, então isto não é capitalismo, é uma pilhagem organizada com fachada de república. O governador voa, o empresário sorri, o eleitor aplaude a plataforma social, e alguém, sempre alguém invisível, paga a conta em forma de tarifa mais cara, imposto mais salgado ou poupança devorada pela inflação que virá para tapar mais um rombo bancário. A festa é dos mesmos de sempre, o convite chega por helicóptero, e a fatura vem pelo boleto.
Que ninguém se espante quando, daqui a alguns meses, aparecer algum decreto convenientemente favorável a alguma empresa ligada ao passageiro discreto daquele voo. Que ninguém se surpreenda com nomeação estratégica em estatal, com renegociação silenciosa de dívida, com licitação vencida por consórcio de rosto familiar. O helicóptero de 30 de agosto não foi transporte, foi contrato. E contratos, nesse país, valem mais do que constituições.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.