Michele Bullock subiu ao púlpito antes da reunião do Reserve Bank of Australia e fez o que todo banqueiro central faz quando a conta começa a chegar, alertou solenemente para os riscos de inflação persistente, como se estivesse comentando o clima e não o resultado direto de uma década de expansão monetária que ela mesma ajudou a comandar. É como o incendiário que aparece na coletiva de imprensa preocupado com a temperatura das chamas, franzindo a testa diante do próprio fósforo aceso. O mercado, treinado a decifrar hieróglifos, tenta adivinhar se haverá corte, manutenção ou alta, quando a pergunta honesta seria outra, por que existe um comitê de nove pessoas decidindo o preço do dinheiro para vinte e seis milhões de australianos.

A inflação australiana teima em não voltar para a meta de dois a três por cento, e a explicação oficial vem embrulhada em jargão técnico sobre choques de oferta, dinâmica salarial e expectativas ancoradas. Traduzindo do burocratês, ninguém quer admitir o óbvio, quando você despeja liquidez no sistema durante anos para financiar gastança pandêmica e programas de estímulo, o preço de tudo sobe, e sobe primeiro onde o dinheiro chega primeiro, imóveis, ativos financeiros, bens duráveis. O australiano médio descobre isso no supermercado, no aluguel, na conta de luz, enquanto o banco central descobre em relatórios trimestrais com atraso de dezoito meses.

Vale seguir a trilha do dinheiro. Quem ganha com juros altos são os grandes bancos comerciais, que emprestam caro e captam barato do próprio banco central via reservas remuneradas. Quem ganha com juros baixos são os endividados de peso, o Tesouro australiano à frente de todos, que rola dívida pública crescente sem susto. Quem perde nos dois cenários é sempre o mesmo sujeito, o poupador comum, o assalariado, o pequeno empresário que não tem lobby em Camberra nem departamento jurídico para se hedgar contra as decisões de meia dúzia de doutores em economia reunidos em Sydney. A tarifa da eletricidade sobe, o financiamento imobiliário sufoca, e a explicação oficial menciona fatores externos como se a Austrália fosse vítima passiva de uma conspiração cósmica.

O detalhe delicioso é que a governadora fala em riscos como quem descreve um paciente terminal, quando a doença tem endereço conhecido e sala de reunião climatizada. Nenhuma economia do mundo produziu inflação persistente sem que o respectivo banco central tenha expandido a base monetária além do crescimento real da produção. Isso não é opinião, é aritmética. Mas confessar aritmética exigiria assumir que a instituição existe para gerenciar um problema que ela própria fabrica, e nenhum sacerdote demole o próprio templo em público. Por isso o vocabulário sempre desvia, choques exógenos, pressões salariais, expectativas desancoradas, tudo menos a impressora.

Enquanto isso, a economia real australiana carrega o fardo. Empresas adiam investimento porque não sabem onde a taxa vai parar, famílias renegociam hipotecas com parcelas que dobraram em três anos, e o governo federal, este sim beneficiário silencioso do jogo inflacionário, arrecada mais imposto sobre o mesmo consumo real porque os valores nominais incharam. Chamam isso de política monetária responsável. Uma pessoa comum, sem doutorado, chamaria de confisco disfarçado. A diferença entre um assalto na esquina e um assalto no plenário do banco central é que o segundo vem com gráficos coloridos e conferência de imprensa.

A grande piada da modernidade monetária é convencer o público de que o problema da inflação é técnico demais para leigos entenderem, quando na verdade é simples demais para especialistas admitirem. Enquanto houver comitês decidindo arbitrariamente o preço do dinheiro, haverá ciclos de boom e bust, haverá bolhas e estouros, haverá governadores preocupados no púlpito com incêndios que eles mesmos atearam. Sydney hoje, Brasília amanhã, o roteiro é sempre o mesmo, muda apenas o sotaque de quem lê o script.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.