A notícia veio embrulhada em jargão de banco, como sempre. O Guggenheim reduziu o preço-alvo das ações do Kroger de algum valor anterior para US$ 66, alegando fraqueza nos volumes, tradução educada para dizer que o americano médio está comprando menos comida. Menos comida. Numa das maiores redes de supermercado do planeta, no país mais rico do mundo, num ciclo que os oráculos do Federal Reserve juram estar em pouso suave. Pousou tanto que o consumidor bateu com a cara no chão.

Volume caindo enquanto receita nominal se sustenta é o retrato mais honesto que existe da inflação que os índices oficiais adoram maquiar. Você paga mais pelo mesmo, ou paga o mesmo por menos, e o boletim do governo insiste que o CPI está sob controle. Enquanto isso, a mãe de família no Kroger de Ohio troca a carne pelo frango, o frango pelo ovo, o ovo pelo macarrão instantâneo, e no fim do mês percebe que a impressora de Washington comeu a marmita dela. O varejista aparece como culpado no relatório do analista; o verdadeiro culpado está a poucas quadras da Casa Branca, num prédio de mármore, decidindo quanto crédito artificial vai injetar no próximo trimestre.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Kroger opera com margens finíssimas, algo como dois por cento no bom trimestre, o que significa que qualquer solavanco no custo de insumos, no diesel, no salário mínimo estadual, na conta de energia inflada por regulação verde, vira sangue no balanço. Enquanto o supermercado sangra tentando não perder o cliente, os fundos que financiaram a farra fiscal continuam recebendo cupons gordos da dívida pública. Alguém está pagando essa festa, e não é quem brinda com champanhe em Manhattan. É quem devolve o pote de manteiga na prateleira porque não cabe mais no orçamento.

Existe um sintoma antigo, tão velho quanto a história do dinheiro fiduciário, que os manuais de economia insistem em ignorar. Chama-se destruição da demanda por empobrecimento silencioso. Não é recessão declarada, é a coisa mais covarde que existe: o cidadão continua trabalhando, continua recebendo, continua consumindo, só que consome cada vez menos daquilo que sustenta a vida real, comida, abrigo, saúde, e cada vez mais daquilo que a mídia financeira chama de crédito rotativo. Kroger não está com problema de gestão. Kroger está sendo o termômetro que o termostato oficial se recusa a ler.

E aqui entra a parte que ninguém no Guggenheim vai colocar num relatório, porque não paga bônus dizer o óbvio. Quando o supermercado popular perde volume enquanto a bolsa de tecnologia sobe cinco por cento no mês, isso não é economia saudável, é bolha alimentada por liquidez que não chega no consumidor comum. Chega no Nasdaq, chega no imóvel de luxo, chega no criptoativo do momento, e o cidadão que produz de verdade vira estatística de queda de volume no relatório trimestral de uma rede de mercearias. O sintoma é claro; o diagnóstico oficial vai dizer que a culpa é do clima, do consumidor mimado, de algum bode expiatório qualquer.

O corte do preço-alvo é uma placa de trânsito, não o buraco na estrada. O buraco é estrutural, é monetário, é filho legítimo de décadas de gasto público financiado por dívida que ninguém pretende honrar em moeda dura. Quando o carrinho de supermercado encolhe, encolhe também a paciência de uma sociedade inteira, e história tem mostrado, sem exceção, o que acontece com regimes que confundem impressora com política econômica. O Kroger vai ficar bem, empresa boa sobrevive a governo ruim. A dúvida é quanto tempo o eleitor médio vai continuar acreditando na fábula do soft landing enquanto passa fome com a geladeira cheia de nada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.