A Hawaiian Electric anunciou a venda de sua participação no American Savings Bank, e a imprensa financeira embrulhou o desmonte no papel de presente de sempre, dizendo que a empresa está se reorganizando, focando no que importa, destravando valor. Traduzindo do dialeto corporativo para o português: a elétrica está queimando patrimônio para não afundar. O banco era justamente a joia que dava previsibilidade de receita, o negócio que não dependia de tempestade nem de linha de transmissão caída. Quando você vende o que funciona para salvar o que quebrou, não está reorganizando nada, está fazendo leilão de bombeiro dentro do próprio incêndio.
E que incêndio. Os processos e acordos ligados à tragédia de Lahaina transformaram o balanço da companhia num campo minado. A elétrica agora precisa de bilhões em dinheiro vivo para honrar indenizações, e o mercado, que não é santo mas sabe fazer conta, percebeu antes de qualquer regulador. O interessante é olhar para trás e ver como se chegou aqui. Décadas de concessão estatal blindada, tarifa negociada em gabinete, obrigação de servir imposta por lei, tudo isso constrói um monopólio que parece invencível até o dia em que a natureza cobra o pedágio da manutenção adiada e o Judiciário descobre que existe um bolso fundo para saquear.
Siga o dinheiro e a peça se ilumina. O banco vendido gera lucro estável, dividendos, capital regulatório útil. Quem compra sabe disso e paga com desconto de urgência, porque comprador de vendedor apressado nunca paga preço cheio. Do outro lado, o consumidor havaiano já se prepara para a próxima rodada de reajuste tarifário, porque a lógica do serviço público monopolizado é sempre a mesma: lucro é privado enquanto der, prejuízo é socializado quando aperta. A conta dos advogados, dos acordos, das novas linhas subterrâneas que deveriam ter sido enterradas há vinte anos, tudo isso vai ser diluído no quilowatt-hora de cada família da ilha.
Há também a fábula regulatória que precisa ser desmontada. Contam para o público que a comissão de utilidades protege o consumidor fixando tarifas, aprovando investimentos, supervisionando padrões de segurança. Se protegesse mesmo, a rede não teria virado estopim de tragédia, e a empresa não estaria se desmembrando para pagar o preço da própria complacência regulatória. O que esse tipo de arranjo produz, invariavelmente, é uma empresa que responde ao regulador e não ao cliente, que investe onde o gabinete manda e não onde o risco pede, que acumula ativos financeiros para compensar a mediocridade operacional garantida por lei. Quando o castelo desaba, descobre-se que o guardião estava dormindo, e o guardião do guardião estava recebendo doação de campanha.
A venda do banco também revela uma verdade que ninguém em Honolulu quer admitir em voz alta. Concentrar num mesmo conglomerado a distribuição de energia e a intermediação financeira sempre foi anomalia sustentada por privilégio político, não por lógica econômica. Um banco saudável não precisa de uma elétrica frágil ao lado, e uma elétrica bem gerida não precisa de banco para maquiar resultado. A separação forçada pela crise faz, no susto e com prejuízo, o que uma economia menos capturada teria feito espontaneamente há décadas. É o mercado impondo, no grito, a disciplina que a regulação passou anos evitando.
Fica a lição que sempre volta, embora ninguém queira aprender. O modelo de monopólio protegido, tarifa política e resgate implícito parece funcionar durante o bom tempo, e é sempre bom tempo até parar de ser. Quando o vento muda, quem paga a conta não é o executivo que aprovou o dividendo generoso, não é o comissário que carimbou o plano de investimento, não é o político que recebeu o cheque de campanha. Quem paga é o cliente cativo que não pode trocar de fornecedor, o pequeno acionista que acreditou na estabilidade da utility, e agora também o depositante do banco que será digerido por outro grupo sob nova gestão. No fim, o único ativo verdadeiramente destruído nesse tipo de história é a confiança, e essa não tem comprador de ocasião.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.