O Heritage NOLA Bancorp, holding do Heritage Bank of St. Tammany, comunicou ao mercado que a dissolução voluntária da companhia deve gerar uma distribuição final entre 21,30 e 21,40 dólares por ação. Traduzindo do dialeto de comunicado: os donos decidiram que não vale mais a pena continuar tocando o negócio, venderam a operação, pagaram o que deviam, e agora entregam o caixa restante para quem colocou o dinheiro no início. Fim de linha, com honra, com número redondo, com respeito ao capital alheio. No Brasil, isso soaria quase indecente.

Repare no mecanismo, porque ele revela tudo. Uma empresa privada não é um patrimônio da nação, não é um bem público disfarçado, não é uma extensão do governo com CNPJ. Ela pertence a quem comprou suas ações, e quem comprou suas ações tem o direito elementar de encerrar a brincadeira quando os retornos não justificam mais o risco. A dissolução voluntária é um dos atos mais civilizados que um mercado pode oferecer, porque prova que o capital é livre para entrar e livre para sair, sem pedir licença a nenhum burocrata iluminado que se acha dono do dinheiro dos outros.

Olha, faça o exercício mental de imaginar essa mesma cena em solo tupiniquim. Um banco de médio porte anuncia que vai se autodissolver e devolver o caixa aos acionistas. Em quarenta e oito horas o Congresso convocaria audiência pública, algum ministério inventaria a palavra estratégico para bloquear a operação, a imprensa gritaria abandono social, três senadores proporiam CPI, e um juiz de vara distante determinaria a manutenção compulsória das atividades sob alegação de função social do banco. O que nos Estados Unidos é rotina contratual, aqui viraria caso de segurança nacional. E o pior é que muita gente aplaudiria a intervenção como defesa do povo, sem perceber que o povo, no caso, é justamente quem investiu e agora não pode retirar o próprio dinheiro.

Siga a trilha do dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Um valor entre 21,30 e 21,40 dólares por ação não caiu do céu, não foi decretado por presidente de banco central, não veio de subsídio, não veio de emissão monetária, não veio de imposto arrancado do vizinho. Veio do próprio balanço da empresa, construído ao longo de anos de operação bancária de nicho, atendendo comunidades locais que preferem uma instituição pequena a um conglomerado tentacular. É dinheiro que existe porque foi acumulado por meio de trocas voluntárias, e é dinheiro que retorna a quem tem direito legítimo sobre ele. Não há mistério, não há mágica, há apenas a mão anônima do mercado devolvendo o que pertence a seus donos.

Existe ainda um ponto que passa despercebido nas manchetes desta terça, e é o mais importante de todos. Quando uma empresa pode morrer em paz, com procedimento previsível e valor certo, o sistema inteiro fica mais saudável, porque investidores futuros sabem que aquele mercado respeita a saída tanto quanto a entrada. Onde a saída é criminalizada, ninguém quer entrar. Onde o encerramento é honesto, o capital acorre. Toda economia que trata a dissolução como catástrofe está, sem perceber, decretando sua própria estagnação, porque expulsa o dinheiro que só migra para onde é bem tratado no princípio e no fim.

Enquanto isso, no país tropical em que estamos condenados a sobreviver, ainda se discute se acionista minoritário pode ou não receber dividendos sem passar por dez camadas de tributação, se empresa em recuperação judicial deve ou não ser mantida artificialmente viva por decreto, se banco pequeno tem o direito de fechar sem virar caso de justiça do trabalho por dez anos. A cena de Louisiana é um espelho, e o reflexo é constrangedor. Um banco morre com dignidade e paga aos seus donos em dinheiro vivo, e nós continuamos discutindo se o direito de propriedade é ou não uma ofensa ao interesse coletivo. Onde o capital tem porta de saída, floresce vida. Onde só tem grade, apodrece tudo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.