Carlos passou seis anos comendo arroz com ovo, adiando cerveja, remendando sapato, para juntar noventa mil reais e erguer o segundo andar dos sonhos. A obra ficou linda, o reboco ainda cheirava a cimento fresco, quando a dona Marta apareceu no portão com um topógrafo e uma trena eletrônica. Quarenta centímetros. Foi o que a laje avançou sobre o terreno vizinho. Não foi um metro, não foi uma parede inteira, foi a distância de um antebraço adulto. E, no entanto, é sobre esses quarenta centímetros que se decide a única questão civilizatória que interessa desde que o primeiro sujeito fincou uma estaca no chão e disse isto é meu. Ou o limite existe, ou não existe. Não há meio termo, não há bom senso, não há acordo de cavalheiros. A régua é a régua.
O leitor sentimental vai torcer por Carlos. Coitado, seis anos, noventa mil, imagina demolir. O leitor sentimental é exatamente o material de que se fazem as tiranias domésticas e as grandes. Porque a lógica é implacável e não se comove com currículo de sofrimento: se meia laje sobre terreno alheio pode ficar porque o dono trabalhou duro para levantá-la, então qualquer invasão fica de pé desde que o invasor mostre suor suficiente. É o argumento do posseiro que ocupa fazenda, do movimento que toma prédio, do governo que confisca poupança. Todos alegam a mesma coisa, todos exibem a mesma calosidade nas mãos, todos pedem a mesma dispensa da geometria. A boa notícia é que a geometria não vota, não se emociona e não abre exceção.
Repare no detalhe que quase ninguém comenta: quem errou a medida? Não foi a dona Marta, que estava dormindo no sofá dela quando o vizinho subiu a fôrma. Foi Carlos, ou o pedreiro de Carlos, ou o engenheiro que Carlos não contratou porque queria economizar mais uns trocados para o rejunte da cozinha. O prejuízo de noventa mil não é castigo do destino, é a conta atrasada de uma decisão barateira. Terceirizar a responsabilidade para a vizinha, transformá-la em vilã por exigir o que é dela, é o velho truque de socializar o erro e privatizar a lamúria. O sujeito não quer pagar advogado, não quis pagar topógrafo, mas quer que a lei pague o pato por ele.
Existe uma tentação irresistível, nesse tipo de história, de propor o meio do caminho. Que Carlos indenize, que dona Marta ceda, que o juiz encontre uma composição amigável. Essa é a linguagem preferida do sujeito que acha que direito é sentimento com carimbo. Se a laje invadiu, ela sai. Se sair custa noventa mil, custa noventa mil. A propriedade privada não é uma sugestão poética que se ajusta conforme o drama do infrator. Ela é a fronteira exata a partir da qual todo o resto da vida civilizada se torna possível, do contrato de trabalho à conta bancária, do casamento ao testamento. Afrouxa aqui, afrouxa em tudo. E quando afrouxa em tudo, o mais forte come o mais fraco, e o mais fraco quase sempre é a senhora idosa que só queria seu quintal em paz.
Note-se, ainda, a graça geométrica do episódio: um cidadão comum passa seis anos economizando cada centavo para realizar um sonho privado, e no fim descobre que o próprio sonho passou por cima de outro sonho igualmente privado. Enquanto isso, do outro lado da cidade, uma prefeitura desapropria trezentos metros quadrados de gente pobre para alargar avenida, um tribunal referenda a manobra, e ninguém chama topógrafo. A régua, quando é o Estado que segura, mede em hectares e chama de progresso. Quando é a vizinha, mede em centímetros e chama de mesquinharia. A hipocrisia é sempre a mesma, muda apenas o tamanho do pedaço que se quer roubar com aplausos.
Que Carlos demola os quarenta centímetros e aprenda, na dor do bolso, aquilo que deveria ser a primeira lição da vida adulta: o que é dos outros não é seu, nem que você chore em cima. Que dona Marta receba o quintal íntegro, com a laje derrubada e o mato aparado, porque o direito dela não depende do currículo emocional do infrator. E que a moral da fábula ecoe, porque ela vale para muito além do muro dos dois: numa terra onde a linha do vizinho não é sagrada, nenhuma linha é. E é exatamente por isso que, de tempos em tempos, a linha do vizinho tem que ser defendida com o rigor de uma trena e a frieza de uma sentença.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.