Duas mil, duzentas e noventa e oito unidades da moeda americana. É esse o valor da operação que uma gestora de ativos com bilhões sob custódia realizou ao adquirir cotas de um fundo qualquer, e que agora circula pelos portais especializados como se fosse informação relevante para alguma alma viva neste planeta. Para efeito de comparação, esse valor não paga o combustível do jatinho executivo que leva um dos diretores da própria gestora ao almoço. E, no entanto, aqui estamos, diante do factoide vestido de fato, do ruído travestido de sinal.

O leitor precisa entender o que está acontecendo aqui, porque o fenômeno é maior do que a piada. Toda transação de valor mobiliário acima de determinado piso regulatório precisa ser reportada. Um exército de algoritmos vasculha esses formulários vinte e quatro horas por dia e cospe manchetes automatizadas para alimentar sites que precisam de conteúdo constante para vender publicidade. Ninguém escreveu aquela notícia pensando em você. Ninguém pensou em nada. É uma máquina alimentando outra máquina, e o investidor pessoa física, coitado, é o último elo da corrente, tentando extrair sabedoria de uma linha de código que apenas cumpriu sua função burocrática.

Olha, existe algo profundamente revelador nesse teatrinho. A regulação, imposta em nome da transparência e da proteção ao investidor, produziu justamente o oposto do que prometia. Ao obrigar a divulgação de qualquer movimentação, criou-se um mar de ruído no qual nenhuma informação verdadeiramente relevante consegue navegar. O sujeito que quer entender para onde vai o dinheiro grande precisa cavar por baixo de dez mil transações microscópicas obrigatoriamente reportadas. É o velho truque de esconder a árvore na floresta, só que agora com selo oficial de compliance.

E quem paga essa festa? O contribuinte que sustenta os órgãos reguladores, o cotista que arca com os custos de reporte embutidos nas taxas de administração, e o poupador comum que se afoga em informação inútil enquanto o dinheiro de verdade se move nos bastidores, longe de qualquer manchete automatizada. A quem serve, afinal, essa transparência que não ilumina nada? Serve a quem vende consultoria para navegar no cipoal regulatório, serve aos advogados especializados em compliance, serve aos portais que vivem de tráfego gerado por manchetes vazias. Serve a todo mundo, menos ao que a lei alegava proteger.

Me diz uma coisa: você acredita mesmo que saber que uma gestora comprou dois mil dólares de um fundo qualquer vai mudar sua decisão de investimento? Claro que não. Mas o simulacro precisa continuar rodando, porque abolir o teatro exigiria confessar que boa parte da estrutura regulatória do mercado financeiro é um monumento à autoperpetuação burocrática. E burocracia, uma vez instalada, tem instinto de sobrevivência maior que barata de esgoto. Ela se justifica pela própria existência, mede seu sucesso pelo volume de papel que produz, e chama de "informação" aquilo que qualquer camponês do século dezenove reconheceria como conversa fiada.

A lição verdadeira dessa não-notícia é a mais valiosa que o investidor pode extrair hoje. Desconfie de tudo que se apresenta como dado objetivo neste mercado. Por trás de cada manchete há um algoritmo, por trás de cada algoritmo há uma exigência regulatória, e por trás de cada exigência regulatória há um interesse que raramente é o seu. O dinheiro inteligente não lê essas notícias. O dinheiro inteligente sabe que a informação que importa nunca aparece em portal com pop-up de anúncio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.