Duzentos e trinta mil centavos de dólar. Foi isso que a Horizon Kinetics Asset Management gastou comprando ações do RENN Fund, e alguém achou que valia a pena transformar isso em notícia. Quer dizer, um valor que não paga um jantar decente em Manhattan virou fato relevante de mercado porque a máquina regulatória americana obriga que cada espirro de gestora institucional seja documentado, arquivado, publicado e distribuído como se fosse informação útil para alguém no planeta.

Olha, existe uma verdade desconfortável sobre o teatro da transparência financeira que ninguém quer encarar. A tese oficial diz que essas divulgações protegem o pequeno investidor, iluminam o mercado, combatem manipulação. A prática mostra outra coisa. A prática mostra um oceano de informação irrelevante, produzido a custo bilionário pelas empresas e pelos reguladores, que serve principalmente para dar emprego a exércitos de compliance, auditores, advogados especializados e jornalistas de agências que precisam reciclar filings da SEC em manchetes.

Me diz uma coisa, quem foi o beneficiário real dessa notícia? O investidor comum não vai ajustar seu portfólio porque uma gestora comprou dois mil e trezentos dólares num fundo fechado. O gestor profissional já tem terminais Bloomberg que filtram esse ruído. Ninguém, absolutamente ninguém, muda uma decisão econômica com base nessa informação. Mas ela existe, é produzida, é distribuída, e alguém está pagando por tudo isso. Siga o dinheiro e você encontra o velho arranjo de sempre: regulador que justifica seu orçamento produzindo regra, empresa regulada que contrata gente cara para cumprir a regra, imprensa financeira que vive de reciclar o produto da regra.

É o velho padrão da janela invisível. Todo mundo vê o formulário preenchido, o boletim publicado, a manchete gerada. Ninguém vê o custo do compliance officer, do sistema de reporte, do advogado que revisa cada linha, do papel institucional que precisou ser produzido, revisado, arquivado. Cada gestora americana carrega uma estrutura inflada de burocracia interna cujo único propósito é alimentar a máquina de transparência que produz notícias sobre operações de dois mil dólares. Some isso ao longo de milhares de fundos, ao longo de décadas, e você tem uma fortuna consumida gerando informação que ninguém lê.

E a ironia mais deliciosa é que essa mesma máquina, tão obcecada em rastrear compras de dois mil dólares em fundos de nicho, deixa passar as verdadeiras concentrações de poder financeiro sem tocar em nada relevante. Os grandes movimentos, os arranjos que efetivamente mexem com o mercado, passam por estruturas offshore, veículos privados, operações estruturadas que a regulação oficial não alcança. A transparência de fachada serve exatamente para criar a ilusão de que existe controle, quando o que existe é o oposto: um sistema desenhado para gerar ruído no varejo enquanto o atacado opera livre.

O mercado livre não precisa dessa mordomia informacional. Preços revelam mais em cinco minutos de pregão do que mil filings revelam num ano inteiro. Quando a gestora precisar comunicar algo relevante aos seus cotistas, ela comunica por interesse próprio, por reputação, por contrato. O resto é liturgia burocrática, e como toda liturgia burocrática, existe para justificar quem a celebra, não para servir quem a assiste. Transparência que ninguém consulta é opacidade paga com dinheiro alheio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.