Os Houthis avançaram outra vez. Tomaram mais ilhas no estreito de Bab el-Mandeb, aquele funil de água entre o Iêmen e o Chifre da África por onde escoa cerca de 12% do comércio marítimo do planeta e boa parte do petróleo que abastece a Europa. Enquanto isso, a resposta ocidental oscila entre notas de repúdio, sanções cosméticas e algum bombardeio simbólico que não muda absolutamente nada no terreno. Quer dizer, o mais poderoso arsenal militar da história humana, financiado com trilhões de dólares extorquidos do contribuinte americano e europeu, é incapaz de proteger uma rota comercial que sustenta o próprio bolso de quem paga a conta. Alguma coisa está profundamente errada nesse arranjo.

Olha, seguir o dinheiro nessa história é um exercício revelador. Cada contêiner desviado da rota do Suez agora precisa dar a volta pela África, o que acrescenta duas semanas de viagem, milhões em combustível e um prêmio de seguro que já triplicou em alguns trechos. Quem paga? O consumidor final, claro, aquele mesmo que já é sangrado por impostos para financiar exércitos que não conseguem garantir o mínimo que justifica sua existência: a livre circulação de mercadorias. E quem lucra? Os operadores logísticos gigantes que absorvem margens, os fabricantes de armas que reabastecem estoques a preço de ouro, e naturalmente o Irã, que patrocina a bagunça e observa Washington se debatendo como peixe fora d'água.

Há aqui uma lição que ninguém quer aprender. O império romano ruiu não quando os bárbaros ficaram mais fortes, mas quando Roma ficou distraída demais com circo, corrupção e engenharia social interna para defender suas fronteiras comerciais. A analogia é quase constrangedora. Enquanto pastores armados com drones baratos, comprados provavelmente por menos do que custa um único míssil americano, fecham o Mar Vermelho, as chancelarias ocidentais estão preocupadas em traduzir memorandos internos para linguagem neutra e em auditar o carbono das fragatas que deveriam patrulhar o estreito. É a decadência em câmera lenta, transmitida em alta definição.

E aqui entra o ponto que a imprensa financeira jamais tocará: o custo real dessa incompetência não aparece nos balanços dos governos, aparece na inflação silenciosa que corrói o salário de quem não tem lobby. Cada dia que o estreito continua sob controle miliciano é mais um centavo no preço do pão, mais um real no litro do combustível, mais um ponto no juro do financiamento imobiliário. É a tal parte que não se vê. O emprego preservado no complexo militar-industrial é visível e celebrado; a pequena fábrica que fecha porque o insumo importado ficou proibitivo é invisível, e seus operários viram estatística de assistência social, alimentando o mesmo Estado que criou o problema.

O que os Houthis demonstram, sem querer, é a fragilidade estrutural de uma ordem global construída sobre a suposição de que rotas comerciais são gratuitas e eternas. Não são. Nunca foram. A liberdade de comércio, como toda liberdade, custa vigilância, custa músculo, custa clareza sobre quem é aliado e quem é inimigo. Trocamos isso por seminários de diversidade nas academias militares e por generais que dão entrevista sobre pronomes preferidos. O resultado está aí, à vista de quem quer ver: uma milícia tribal ditando os termos do comércio internacional enquanto potências nucleares fazem cara feia por videoconferência.

No fim das contas, a geografia sempre cobra sua fatura, e ela não aceita cheque emocional nem parcelamento identitário. Quem não sabe defender o estreito acaba pagando pedágio ao dono do estreito. É a lei mais antiga do mundo, e nenhum decreto de Bruxelas jamais vai revogá-la.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.