A Hyperscale Data anunciou, com aquela pompa típica de comunicado para investidor apressado, que seu campus de dados em Michigan terá valor mínimo de US$ 750 milhões. O número é grande, redondo, fotogênico, e serve exatamente para o que foi feito: ancorar expectativa em bolsa e sinalizar ao mercado que a empresa entrou no clube dos gigantes da infraestrutura de nuvem. Só que valor mínimo não é preço de mercado, é meta de balanço; e meta de balanço, em setor que vive de incentivo fiscal e tarifa de energia negociada no atacado com governador ansioso por manchete, diz pouco sobre criação real de riqueza e muito sobre engenharia contábil.

Olha, todo estado americano que virou meca de data center nos últimos cinco anos, Virgínia, Texas, Arizona, agora Michigan, seguiu o mesmo roteiro: isenção de imposto sobre equipamento, desconto agressivo na conta de luz, terreno público vendido a preço de banana, e um cerimonial de coletiva com o governador cortando fita. O que se vê é o campus reluzente, o emprego temporário de construção, o número no press release. O que não se vê é a fábrica que fechou porque a tarifa industrial subiu para bancar o desconto do hyperscaler, o morador da região que agora paga energia mais cara, o pequeno comércio que não teve isenção nenhuma e continua sustentando a máquina pública sozinho.

Quer dizer, se o negócio fosse tão rentável quanto o comunicado sugere, por que precisa de subsídio? Empresa que promete US$ 750 milhões de valor mínimo deveria conseguir levantar o campus sem enfiar a mão no bolso do contribuinte de Detroit. A resposta, quem acompanha o setor sabe, é simples: o número bonito só fecha depois que o estado abate a conta. Tira o incentivo, e a rentabilidade evapora. É modelo de negócio que depende estruturalmente do favor político, e favor político nunca é grátis, é sempre pago por quem não estava na mesa da negociação.

Me diz uma coisa: quando foi que decidimos, coletivamente, que o cidadão médio de Michigan tem obrigação de subsidiar a infraestrutura de treinamento de inteligência artificial de uma empresa listada em Nasdaq? Ninguém votou nisso. Ninguém foi consultado. A decisão saiu de um gabinete, foi carimbada por uma agência de desenvolvimento econômico, e agora vira fato consumado embrulhado em vocabulário técnico. É o velho truque: transformar decisão política em decisão administrativa, e decisão administrativa em inevitabilidade histórica. Amanhã, quando a conta de luz do aposentado subir, dirão que é culpa da inflação global, do clima, da guerra na Ucrânia, de qualquer coisa menos do contrato que ninguém leu.

E ainda há o lado moral da coisa, que ninguém tem coragem de olhar. Data center não emprega gente na proporção que a fábrica empregava. Quando você troca planta industrial por galpão refrigerado cheio de servidor, você troca cinco mil postos de trabalho de classe média por duzentos engenheiros de fora e um exército de segurança terceirizada. A comunidade local recebe migalha, o balanço da holding em Delaware recebe o filé. Chamar isso de desenvolvimento regional é abuso de linguagem, é usar palavra bonita para maquiar transferência de renda de baixo para cima com selo governamental.

O campus vai ser construído, o corte de fita vai acontecer, o governador vai posar sorrindo, e daqui a dez anos, quando a tecnologia mudar e o galpão virar elefante branco, ninguém vai lembrar do valor mínimo de US$ 750 milhões que hoje sustenta a manchete. Vai sobrar concreto, dívida pública, tarifa inflada, e a lição que ninguém quer aprender: toda vez que o Estado escolhe vencedor no mercado, o perdedor é sempre o mesmo, o sujeito que trabalha, paga imposto, e nunca foi convidado para a coletiva.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.