A Hyperscale Data anunciou que carrega US$ 51 milhões entre bitcoin e caixa no balanço, e a notícia deveria envergonhar todo presidente de banco central deste planeta. Uma empresa listada, com contadores auditados e acionistas para satisfazer, olhou para o dólar, olhou para o título público, olhou para o bitcoin, e decidiu que a moeda que o Tesouro americano gerencia há décadas não merece guardar o suor do trabalho alheio. Quando a companhia prefere o código aberto de um protocolo à assinatura do secretário do Tesouro, a mensagem é clara, e não precisa de tradutor.

Olha, a história do dinheiro é a história de fugir do rei que resolveu adulterar a moeda. Foi assim quando imperadores romanos raspavam prata das bordas do denário para pagar legiões, foi assim quando reis medievais decretavam o valor do metal que não tinham, e é assim agora, com bancos centrais que chamam de "flexibilização quantitativa" o que qualquer camponês do século XIV chamaria de calote. O bitcoin não caiu do céu por acaso, nasceu como resposta técnica a um problema político antigo, que é a incapacidade crônica do soberano de resistir à tentação de gastar mais do que arrecada.

Quer dizer, siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais interessante. Enquanto o cidadão comum é doutrinado a acreditar que guardar dinheiro em poupança é "prudente" e comprar cripto é "aventura", as tesourarias corporativas mais espertas fazem exatamente o oposto do que a mídia econômica recomenda. A poupança rende abaixo da inflação real, o CDB paga em moeda que perde poder de compra todo trimestre, e o título público é IOU de devedor contumaz. O bitcoin, com todos os seus solavancos, tem uma virtude que nenhum ativo estatal oferece, que é oferta finita e cronograma auditável por qualquer um com um notebook.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que você conseguiu auditar a base monetária do dólar em tempo real? Ou do real? Ninguém consegue, porque a informação é opaca por design, divulgada com atraso, revisada retroativamente e maquiada com termos técnicos que servem para intimidar o leigo. Já a emissão do bitcoin é pública, previsível e imutável desde 2009. Não é coincidência que empresas que pensam a longo prazo estejam migrando pedaços do balanço para lá, é reação racional de quem entende que a inflação não é fenômeno da natureza, é política deliberada de transferência de renda do poupador para o devedor, e o maior devedor da praça é sempre o governo.

O que os defensores do controle monetário estatal nunca respondem é a pergunta simples: se a moeda estatal é tão boa, por que precisa de curso forçado, controle de capital, imposto sobre câmbio e propaganda constante contra alternativas? Produto bom não precisa de lei obrigando o cliente a comprar. O fato de o Estado precisar de coerção legal para manter sua moeda em circulação já diz tudo sobre a qualidade do produto. A Hyperscale, na sua modesta declaração trimestral, fez o que colunista nenhum de jornal grande tem coragem de fazer, que é votar com o próprio dinheiro contra a farsa da estabilidade monetária.

Cinquenta e um milhões de dólares parecem pouco na escala macro, mas o valor simbólico é imenso. Cada balanço corporativo que revela posição em bitcoin é uma sentença silenciosa contra o monopólio da impressora, é um voto de desconfiança que nenhum discurso oficial consegue neutralizar. E enquanto os burocratas continuarem tratando o contribuinte como fiador infinito da farra fiscal, essa migração vai acelerar, porque no fim das contas dinheiro é linguagem, e ninguém quer conversar em idioma que o governo reescreve todo mês.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.