Vamos aos fatos, porque a manchete é bonita demais para ser lida sem desconfiança. A Anthropic, laboratório de inteligência artificial americano, comunicou nesta semana que seu modelo teria identificado um sistema enzimático inédito, funcionalmente análogo ao CRISPR, aquela ferramenta de edição genética que rendeu Nobel em 2020 e movimenta hoje uma indústria de dezenas de bilhões de dólares. O anúncio foi engolido pela imprensa financeira internacional com o mesmo entusiasmo acrítico com que se noticiava, dez anos atrás, que a WeWork ia reinventar o trabalho e a Theranos ia reinventar o sangue. Ninguém pergunta o óbvio: cadê o paper revisado por pares, cadê a replicação independente, cadê o experimento úmido que sai do silício e vira bancada de laboratório.
Quer dizer, uma coisa é um algoritmo vasculhar bancos de dados públicos de genomas microbianos, cruzar sequências e sugerir candidatos promissores, o que qualquer bioinformata razoável já faz há uma década com ferramentas gratuitas. Outra coisa, muito diferente, é dizer que a máquina "descobriu" algo, palavra que carrega peso epistemológico e mercadológico. Descoberta científica exige demonstração empírica, não anúncio corporativo. E aqui entra a parte que ninguém quer olhar: a Anthropic queima caixa numa velocidade estonteante, depende de rodadas cada vez maiores do Google e de fundos soberanos, e precisa desesperadamente justificar avaliações que já ultrapassam a casa das centenas de bilhões. Nada como um "avanço biológico" para segurar a narrativa até a próxima captação.
Olha, o padrão é velho como o mundo. Toda vez que uma empresa se aproxima do teto natural do seu ciclo de hype, aparece a promessa messiânica de que o produto vai curar o câncer, resolver a fome, editar o genoma. É a mesma engenharia narrativa que sustentou a bolha das ponto-com, a bolha das criptomoedas de utilidade nenhuma, a bolha dos veículos autônomos que iam estar nas ruas em 2020. O que se vê é o comunicado brilhante; o que não se vê é o rio de dinheiro público e privado sendo canalizado para um setor que ainda não entregou produtividade agregada mensurável na economia real, apesar dos trilhões investidos.
E tem o segundo andar do prédio, mais interessante ainda. A Anthropic é, hoje, a voz mais barulhenta do Vale do Silício pedindo regulação pesada sobre inteligência artificial. Traduzindo do corporativês: quer que o governo americano crie barreiras de entrada que só os três ou quatro incumbentes bem capitalizados conseguem pagar. Agora, some a isso um anúncio de que a IA delas está mexendo com edição genética, área que já é uma das mais regulamentadas do planeta, e você tem o roteiro perfeito para justificar licenciamento estatal, auditoria compulsória, comitês de ética pagos com dinheiro do contribuinte e, claro, uma cadeira permanente da própria Anthropic em todos esses comitês. Captura regulatória não se anuncia; se coreografa.
Me diz uma coisa, quem paga a conta quando o Estado decide que só laboratórios "certificados" podem pesquisar sistemas enzimáticos derivados de modelos de linguagem? O pesquisador brasileiro da federal do interior, que nunca vai ter selo americano. A startup de biotecnologia de dois pós-docs numa garagem em Tel Aviv. O grupo chinês que vai simplesmente ignorar a regulação e sair na frente. E quem ganha? Os quatro ou cinco laboratórios americanos que já dominam o mercado e agora vão dominar também o gargalo regulatório. É o velho casamento entre grande empresa e grande governo, vestido de preocupação ética, com o consumidor final pagando duas vezes: no imposto que financia a burocracia e no preço inflado do produto final.
A descoberta pode até ser real, pode ser genuína, pode render um paper honesto daqui a dois anos. Torço para que seja. Mas a forma como foi anunciada, o timing, o público-alvo do comunicado, tudo cheira menos a ciência e mais a marketing regulatório. Quando uma empresa privada começa a agir como se fosse uma agência governamental, e uma agência governamental começa a agir como se fosse braço comercial de uma empresa privada, não sobra mais mercado, sobra corporativismo com verniz tecnológico. E disso o século vinte já nos ensinou o suficiente para reconhecer o cheiro à distância.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.