A semana começa com o ritual de sempre. O Focus sai na segunda, os dados da China aterrissam na madrugada, e o mercado inteiro segura a respiração até a próxima quarta, quando dois comitês, um em Brasília e outro em Washington, vão decidir com uma canetada o preço do dinheiro que você guarda debaixo do colchão. E a imprensa financeira trata isso como se fosse meteorologia, como se juros e câmbio fossem fenômenos naturais que apenas observamos, e não decisões humanas tomadas por um punhado de gente cujo salário não depende de acertar.
Repare no vocabulário. Diz-se que o mercado precifica, que os ativos reagem, que a curva abre ou fecha. Tudo no passivo, tudo impessoal, como se ninguém estivesse por trás. Mas há, sim. Há um Banco Central que emitiu moeda como se não houvesse amanhã durante a pandemia, um Tesouro que empilhou dívida em ritmo de guerra, e agora ambos posam de bombeiros diante do incêndio que eles mesmos atearam. É o velho truque do piromaníaco que se candidata a chefe do corpo de bombeiros e ainda ganha aplauso do público.
O Focus, esse boletim que a mídia trata como se fosse tábua de Moisés, nada mais é do que a média das apostas de economistas que trabalham para os mesmos bancos que lucram com a dívida pública. Quer dizer, você tem cem sujeitos que ganham a vida vendendo títulos do governo dando o palpite sobre quanto o governo vai pagar de juros. Se isso não é conflito de interesse embalado com laço de fita, eu não sei o que é. E ainda assim o número sai na segunda e a Faria Lima inteira reza terços em cima dele.
A China entra na equação porque exportamos soja, minério e a alma da nossa política externa para eles. Se a atividade industrial chinesa desacelera, o real apanha, o Ibovespa sangra, e o brasileiro médio, que nunca ouviu falar de PMI manufatureiro, descobre no supermercado que o pão subiu dez por cento. É a globalização das consequências sem a globalização das decisões, o cidadão paga a conta de escolhas que jamais foram submetidas a ele.
Olha, no fundo o Copom e o FOMC vão fazer o que sempre fazem, ajustar meio ponto para cá, um quarto para lá, e a imprensa vai gastar oceanos de tinta especulando sobre a vírgula do comunicado, se saiu a palavra vigilante ou se entrou a palavra cautela. É semiótica de bacharel disfarçada de análise econômica. Enquanto isso, a inflação real, aquela que come o poder de compra da faxineira e do aposentado, continua sendo alimentada exatamente pela mesma máquina que finge combatê-la.
Me diz uma coisa, se o remédio para inflação é subir juros, e o subir juros só existe porque antes se imprimiu dinheiro demais, por que continuamos tratando o Banco Central como oráculo em vez de tratá-lo como réu? A resposta é desconfortável, porque toda a arquitetura financeira moderna depende dessa mistificação. Sem o teatro do Copom, alguém teria que admitir que o rei está nu, que a moeda é ficção sustentada por confiança, e que a confiança está evaporando um pouquinho a cada boletim.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.