O Ibovespa recua com os olhos do mercado grudados nos próximos dados de inflação, e a cena se repete com a monotonia de um teatro de província. Analistas de terno bem cortado aparecem nas telas com semblante grave, como se o índice de preços fosse um meteoro caído do espaço, e não a consequência aritmética e previsível de tudo o que o governo vem fazendo há meses. Quer dizer, imprimir moeda, expandir gasto, financiar o compadrio via BNDES, empurrar dívida para frente e depois se espantar com a inflação é o equivalente econômico de acender um fósforo dentro de um paiol e reclamar da fumaça.

Existe uma verdade elementar que a imprensa financeira insiste em travestir de mistério: preço é informação. Quando o preço sobe generalizadamente, não é a padaria que ficou gananciosa, nem o supermercado que resolveu ser mau. É o dinheiro que valeu menos porque foi fabricado a mais. E cada real a mais que sai da impressora oficial é um real a menos no bolso de quem produziu, poupou e trabalhou. A conta da festa em Brasília não some, apenas migra, e migra sempre na direção de quem menos pode pagá-la.

Siga o dinheiro e a fábula se desmonta. O gasto público brasileiro não financia o pobre, financia o intermediário do pobre. Financia a estrutura sindical, o consultor credenciado, o fornecedor amigo, o banco público que empresta a juro subsidiado para o campeão nacional escolhido a dedo. O contribuinte paga, o lobista recebe, e o pobre ganha o direito de aplaudir uma migalha que saiu do próprio bolso. Depois vem a inflação, que é o imposto mais covarde de todos, porque não precisa passar pelo Congresso, não pede autorização e cai igualmente sobre quem votou a favor e contra.

O mais irritante é a encenação de neutralidade técnica. Bancos centrais decidindo juros com a solenidade de sacerdotes, comitês monetários publicando atas em latim contábil, economistas de banco explicando o inexplicável com gráficos coloridos. Nenhum deles, por mais titulado que seja, tem a mínima ideia de qual deveria ser o preço do dinheiro amanhã. Ninguém tem. O preço correto do crédito só apareceria num mercado em que poupança real encontrasse investimento real, sem a interferência do burocrata que acha, de dentro do seu gabinete refrigerado, que pode calibrar por decreto aquilo que milhões de pessoas decidem todo dia com o próprio suor.

E a bolsa cai porque, no fundo, o capital não é bobo. O capital farejou que a promessa de responsabilidade fiscal virou fantasia, que o arcabouço é uma cerca de papel-manteiga, e que a única variável realmente firme no horizonte é a disposição do governo de continuar gastando o que não tem para agradar quem já recebe. O investidor estrangeiro fecha a maleta, o local corre para o dólar, e sobra o pequeno poupador brasileiro segurando papel em real, aquele mesmo papel cuja quantidade cresce mais rápido do que a economia que deveria lastreá-lo. Não existe almoço grátis, e essa é uma daquelas frases óbvias que ninguém ousa dizer porque ficou óbvia demais.

Me diz uma coisa, quantas vezes ainda vamos assistir ao mesmo filme antes de admitir que o roteiro é o de sempre? Expansão, euforia, inflação, aperto, recessão, socorro, e depois o mesmo grupo de gênios explicando, com ar de descoberta, que dessa vez foi diferente. Não foi. Nunca é. A bolsa recua hoje porque, no íntimo, sabe que a impressora não é ferramenta de prosperidade; é a bomba-relógio da qual ninguém quer estar por perto quando o ponteiro chegar ao fim. E o ponteiro sempre chega.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.