A Índia, maior importador mundial de óleo vegetal, estuda reduzir os impostos sobre óleo de palma, soja e girassol que chegam pelos seus portos. O motivo é constrangedoramente simples e revela mais sobre a natureza do intervencionismo do que mil tratados acadêmicos: os preços internos dispararam, o consumidor está gritando, e o governo, que meses atrás elevou essas mesmas tarifas para "proteger o produtor doméstico", agora corre para desfazer o próprio nó. Quer dizer, o remédio virou veneno em tempo recorde, e a receita continua sendo a mesma coisa que causou a doença.
Vale reconstituir o filme, porque ele é pedagógico. Em 2024, com preços internacionais em queda, Nova Délhi resolveu que era hora de "cuidar" do agricultor de oleaginosas indiano e enfiou uma sobretaxa gorda na importação. A lógica de cartilha: barrar o estrangeiro, subir o preço interno, engordar a margem do produtor local, ganhar voto no interior. Funcionou lindamente no PowerPoint. Aconteceu que o produtor doméstico, sozinho, jamais deu conta de abastecer 1,4 bilhão de bocas, e a Índia continuou dependendo de dois terços do seu óleo de fora. Ou seja, a tarifa não protegeu ninguém, apenas encareceu tudo. E agora, com o rupee fraco e o mercado global apertado, o preço na prateleira virou problema político maior que o voto do agricultor.
Olha, essa história tem nome antigo. Toda vez que um governo mexe no preço, seja empurrando pra cima com tarifa, seja empurrando pra baixo com tabelamento, ele está tentando adivinhar uma informação que só o mercado, com milhões de compradores e vendedores negociando em tempo real, consegue produzir. O preço não é uma opinião do burocrata, é o resultado agregado de escassez, desejo, custo, expectativa, clima, safra, câmbio e mais uma centena de variáveis que nenhuma planilha do Ministério da Fazenda captura. Quando o Estado mete o dedo, ele não corrige nada, apenas cega o próprio sistema nervoso da economia e força o corpo a operar no escuro. Depois se surpreende com a batida na parede.
E siga o dinheiro, porque aí a coisa fica ainda mais divertida. Quem ganhou com a tarifa alta? Um punhado de produtores domésticos organizados politicamente, mais os importadores autorizados que operam com licenças e sabem transformar barreira alfandegária em renda de monopólio. Quem pagou? A dona de casa em Mumbai, o vendedor de comida de rua em Calcutá, o restaurante popular em Bangalore. Bilhões de transações minúsculas subsidiando calladamente o lobby de meia dúzia. É a fórmula clássica do capitalismo de compadrio, aquele em que empresário e burocrata dançam abraçados enquanto o consumidor paga o baile. Chamam isso de política industrial, de segurança alimentar, de soberania produtiva. Chamem como quiserem, o mecanismo é o mesmo: pilhagem legal, executada com carimbo oficial.
O que ninguém no debate indiano quer admitir é que a tarifa nunca foi sobre "proteger o produtor", foi sobre distribuir privilégio. Se fosse mesmo sobre produção nacional, a resposta seria destravar terra, desregulamentar insumo, deixar a irrigação privada respirar, permitir que o campo indiano competisse em pé de igualdade. Nada disso interessa, porque exige devolver liberdade e cortar poder de burocracia. Muito mais fácil taxar a fronteira, coletar aplausos do lobby rural, e quando o preço estourar na cidade, cortar a tarifa e coletar aplausos do consumidor. É o mesmo governo, aplaudido nas duas pontas, pelo mesmo problema que ele mesmo criou.
Fica a lição, e ela não é indiana, é universal, brasileira inclusive. Toda vez que um ministro sobe ao microfone anunciando que vai "aliviar o custo de vida" mexendo em imposto de importação, saiba que o alívio de hoje é o preço alto de ontem que ele próprio ajudou a construir. O governo não está cortando gordura, está devolvendo pedaço do bolso que tinha metido a mão. E ainda quer palmas por isso. Preço não se decreta, se descobre. Quem não entende isso governa no escuro e cobra o pedágio da sua ignorância no óleo da sua cozinha.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.