O índice STOXX 600 subiu nesta sessão embalado por tecnologia e pelo setor bancário, com o petróleo cedendo terreno no mesmo pregão. A imprensa financeira embrulhou o movimento no papel de presente de sempre, "otimismo dos investidores", "apetite por risco", "confiança nos fundamentos", como se as ações subissem por virtude própria e não porque há um oceano de crédito artificial procurando onde pousar. Quando bancos lideram alta ao mesmo tempo em que tecnologia dispara, não é coincidência bonita, é a assinatura digital de juros que continuam frouxos demais para o tamanho da dívida que a Europa carrega.
Repare no arranjo. Banco ganha dinheiro emprestando; tecnologia depende de capital barato para justificar múltiplos que só fazem sentido em planilha de otimista bêbado. Os dois sobem juntos precisamente quando o mercado cheira que o banco central vai continuar generoso, ou pelo menos não vai ter coragem de apertar de verdade. Não é análise de balanço que move o ponteiro, é leitura de humor do burocrata monetário. E o burocrata monetário, todo mundo já sabe, tem coragem seletiva: aperta quando o pobre sente no supermercado, afrouxa quando o rico sente na carteira de ações.
O petróleo caindo no mesmo dia completa o quadro. Vendem a queda como alívio inflacionário, notícia boa para o consumidor. Só que o consumidor europeu não vai ver esse alívio chegar na conta de luz, porque entre o barril lá fora e a fatura dentro de casa existe uma catedral de impostos, taxas verdes, subsídios cruzados e regulação climática que transformou energia em artigo de luxo administrado por comitê. O petróleo pode cair pela metade que o europeu médio continua pagando caro, porque o problema dele nunca foi o mercado, foi a burocracia que se colou no mercado como carrapato.
E vale seguir o dinheiro dessa festa. Os bancos que sobem hoje são os mesmos que carregam nos balanços títulos soberanos de países que, na prática, nunca vão pagar sem imprimir. Estão comprados em governo, e governo está comprado neles, uma dança de mãos dadas em que o contribuinte é o único que não foi convidado mas paga a conta do buffet. Toda vez que se fala em "solidez do setor bancário europeu", traduza mentalmente: o Estado promete que não deixa quebrar, e o mercado apura o preço dessa promessa em forma de ação subindo.
Tecnologia surfando junto é a cereja. Metade dessas empresas não gera fluxo de caixa que justifique metade do preço, mas ninguém liga, porque quando o dinheiro é impresso a rodo, o critério de valor sai de cena e entra o critério de narrativa. Inteligência artificial, transição verde, digitalização, os rótulos mudam a cada ciclo, mas a mecânica é a mesma desde as tulipas holandesas: excesso de liquidez procurando história para acreditar. Um dia a história acaba, e aí descobrem, sempre com espanto fingido, que a euforia era só juros negativos disfarçados.
O leitor esperto não olha para o pregão de hoje, olha para quem está financiando a alegria. E quando a resposta é sempre a mesma, banco central expandindo balanço, governo emitindo dívida, regulador fingindo que fiscaliza, a conclusão também é sempre a mesma. Bolsa em alta com essa composição não é sinal de economia saudável, é sintoma de moeda doente. E moeda doente, no fim, cobra o preço de quem menos podia pagar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.