O Canadá acordou nesta semana com o dado que ninguém em Ottawa queria ver impresso. A inflação teimou em subir acima da meta, o núcleo veio pior que o esperado, e imediatamente começou o teatro de sempre. De um lado, os analistas que juram que o Banco do Canadá precisa cortar juros agora para não sufocar a economia. Do outro, os que pedem cautela, prudência, mais alguns meses de aperto. E ninguém, absolutamente ninguém no debate público, faz a pergunta óbvia: por que raios um comitê de doze pessoas numa sala fechada em Ottawa deveria decidir o preço do dinheiro de trinta e oito milhões de canadenses?
Olha, a cena é sempre a mesma. O banco central expande o crédito por anos a fio, os preços dos ativos incham, a construção civil ferve, todo mundo se sente rico. Depois, quando a conta chega em forma de inflação persistente, os mesmos senhores que fabricaram a bolha aparecem na televisão com cara de médicos diante de um paciente terminal, discutindo qual dose do veneno que causou a doença deve ser aplicada agora para curá-la. É a lógica do incendiário que se apresenta como bombeiro, e o público aplaude porque esqueceu quem começou o fogo.
Quer dizer, a divergência entre os analistas não é sobre economia, é sobre para quem vão os primeiros gotejamentos do próximo ciclo de expansão monetária. Quem pede corte imediato geralmente representa bancos endividados, construtoras alavancadas, fundos de investimento que precisam de liquidez barata para maquiar retornos medíocres. Quem pede paciência costuma estar posicionado em renda fixa longa e adoraria um pouco mais de juro real antes de virar a mão. Siga o dinheiro e a divergência técnica vira o que sempre foi, disputa de balcão travestida de ciência.
O que ninguém quer dizer em voz alta é que a inflação canadense de hoje é filha direta da farra fiscal e monetária dos últimos anos, da mesma forma que a inflação americana, europeia e brasileira. Imprimiram dinheiro como se fosse confete de carnaval, gastaram como bêbados em bar aberto, e agora fingem surpresa quando o preço do pão, do aluguel e do combustível não volta ao patamar de antes. A inflação não é fenômeno climático, não caiu do céu, não veio da guerra na Ucrânia nem do preço do petróleo. Veio da impressora, ponto final. E o cidadão comum, aquele que não tem ativo indexado nem consultor tributário, é quem paga a conta enquanto os planejadores centrais debatem em quanto ajustar o dial.
O mais irônico é que o Canadá se orgulha há décadas de ter um dos bancos centrais mais tecnicamente competentes do mundo ocidental, com metas de inflação bem calibradas, comunicação transparente, modelos econométricos sofisticadíssimos. E mesmo assim, aqui está o país, com preços fugindo do controle, moradia inacessível para uma geração inteira de jovens, e um debate público que gira em torno de vinte e cinco pontos base a mais ou a menos. Toda essa parafernália intelectual serviu para quê? Para chegar exatamente no mesmo lugar onde chegam os países cujos bancos centrais são chamados de amadores. Talvez o problema não seja a competência dos técnicos, talvez o problema seja a pretensão de que exista técnica capaz de substituir milhões de decisões descentralizadas de poupadores e investidores livres.
No fim do dia, o dado canadense é apenas mais um lembrete de que o sistema monetário fiduciário é uma tragédia em câmera lenta que se repete há mais de cem anos com atores diferentes e roteiro idêntico. Expansão, euforia, inflação, aperto, recessão, novo estímulo, e volta ao começo. Enquanto o cidadão for ensinado a acreditar que existe um comitê de sábios capaz de administrar o preço do dinheiro melhor do que o mercado, ele vai continuar pagando essa conta em forma de poder de compra corroído, poupança derretida e sonho da casa própria adiado indefinidamente. A inflação canadense de hoje não é problema técnico, é sintoma moral de uma civilização que trocou a disciplina do padrão-ouro pela conveniência da caneta do burocrata.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.