A notícia chega quase como piada de mau gosto, mas é séria. O regime dos aiatolás avisou, com todas as letras, que se algum país vizinho ousar suspender voos de companhias iranianas, retaliará paralisando os aeroportos desses vizinhos. Traduzindo do persa para o portunhol da realpolitik, Teerã anunciou ao mundo que sua diplomacia aérea funciona no mesmo registro do agiota de esquina, quem tenta cancelar a dívida acorda com o carro riscado. Só que aqui a dívida é imaginária, o credor é o próprio regime, e o carro riscado seria o terminal internacional de um país soberano.
Olha, o que essa ameaça revela não é força, é desespero coreografado. Um governo que precisa chantagear o vizinho para manter suas rotas abertas está admitindo, sem querer, que ninguém mais quer voar com ele por vontade própria. Quando o produto é bom, o cliente procura o balcão. Quando o produto é ruim, o vendedor manda recado dizendo que vai quebrar a vitrine da concorrência. É a economia do porrete substituindo a economia da troca voluntária, exatamente aquilo que regimes fechados sempre acabam fazendo quando o cálculo racional dos mercados os coloca no lugar que merecem.
Quer dizer, siga o dinheiro e siga o querosene. Companhias aéreas iranianas voam com frota envelhecida, sancionada, remendada com peças de contrabando, e sustentada por um câmbio artificial que só existe porque o Banco Central de lá imprime rial como quem imprime panfleto de campanha. Cada voo dessas empresas é um subsídio disfarçado, um ato político travestido de rota comercial. Quando os vizinhos ameaçam cortar o acesso, não estão fazendo geopolítica, estão apenas reagindo ao óbvio, o que voa ali não é aviação civil, é braço logístico de um regime que financia milícia em três continentes.
E aqui aparece o velho truque que os autoritários adoram, o refém invisível. Ao ameaçar paralisar aeroportos alheios, Teerã não está mirando presidentes nem generais, está mirando a família que vai visitar o filho no exterior, o comerciante que aguarda uma carga, o estudante voltando para a universidade. É a lógica de sempre, o Estado escolhe a vítima que dá mais dor de cabeça política e a usa como escudo. O que não se vê nessa manobra é o custo acumulado sobre milhões de pessoas comuns, e é justamente esse custo invisível que sustenta a bravata do palanque.
Me diz uma coisa, quando foi que uma economia próspera precisou ameaçar o vizinho para vender seus serviços? Nunca. Prosperidade atrai, escassez chantageia. O Irã dos aiatolás é o retrato acabado do que acontece quando se combina planejamento central, teocracia e sanções, uma máquina que consome capital, expulsa talento, quebra moeda e depois culpa o estrangeiro pelo próprio fracasso. A ameaça aérea é só o sintoma mais recente de uma doença crônica, o regime não consegue mais competir, então ameaça sabotar. É o comportamento clássico do monopolista falido que descobriu que o consumidor tem pernas.
No fim, essa história ensina algo que os apologistas de sanções cruzadas e retaliações estatais fingem não enxergar. Toda vez que um governo transforma infraestrutura civil em arma diplomática, ele confessa que perdeu a guerra da persuasão e só lhe resta a guerra da coerção. E quem paga não é o aiatolá no seu palácio nem o burocrata do vizinho no seu gabinete refrigerado, é o sujeito de mala na mão que só queria embarcar. O céu, que deveria ser rota de comércio e reencontro, virou tabuleiro de xadrez de tiranos entediados. E tirano entediado, a história ensina, é a criatura mais perigosa que existe.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.