O Irã veio a público dizer que apresentou as suas condições para retomar as negociações e encerrar a guerra com os Estados Unidos. Repare no verbo. Não é propor, não é sugerir, não é oferecer. É apresentar condições, como quem estende a lista ao garçom depois de já ter comido o cardápio inteiro. O regime que gastou décadas financiando milícia por procuração do Líbano ao Iêmen, que jurou apagar Israel do mapa, que humilhou reféns americanos por quatrocentos e quarenta e quatro dias, agora se apresenta como parte responsável em uma mesa de diálogo. E o mais engraçado é que sempre tem quem acredite.

A pergunta que ninguém em Brasília, Bruxelas ou Genebra quer fazer é simples: por que exatamente o Irã está disposto a conversar agora. A resposta está no dinheiro, como quase sempre está. Sanções apertando, reservas em dólar congeladas, exportação de petróleo obrigada a andar disfarçada em contorno chinês, inflação interna em níveis que só o venezuelano compreende, e uma juventude que já não engole a teocracia com a mesma devoção da geração dos pais. O regime não quer paz por convicção, quer oxigênio por necessidade. Quem entende de tirania sabe que ditador só sorri quando está sangrando.

E aqui entra a parte que a imprensa ocidental adora esconder. Toda vez que o Ocidente aceitou negociar com Teerã em posição de aparente igualdade, o que aconteceu depois foi previsível como amanhecer. O acordo nuclear de 2015 liberou bilhões congelados, que foram direto para o Hezbollah, para os houthis, para o Hamas, para toda a rede de terceirização da violência iraniana. Não foi para escola, não foi para hospital, não foi para saneamento no interior persa. Foi para foguete, para drone, para míssil. Quem paga o preço nunca é o aiatolá, é o civil israelense, é o marinheiro americano no Golfo, é o comerciante saudita, é a menina afegã do outro lado da fronteira.

O truque de apresentar condições é psicológico e antigo. Ao dizer publicamente que exige isto e aquilo antes de sentar à mesa, o regime tenta empurrar o vencedor para a defensiva, forçando Washington a negociar o próprio direito de negociar. É o mesmo golpe do devedor caloteiro que, em vez de pedir prazo, chega dizendo que aceita quitar se o credor perdoar os juros, o principal e ainda emprestar de novo. Funciona quando o credor está com pressa, com medo, ou com governo fraco. Não é acidente que este teatro esteja acontecendo justamente no momento em que a Casa Branca precisa mostrar vitória externa para consumo interno.

Enquanto isso, a chancelaria brasileira continua fingindo neutralidade entre a democracia atacada e a teocracia que financia o ataque, como se equidistância fosse virtude e não covardia disfarçada. O contribuinte daqui não faz ideia de quanto do preço do combustível que ele paga no posto tem embutido o custo geopolítico do bagunçador de Teerã. Mas paga, sempre paga. A regra vale para energia, para grão, para frete marítimo, para prêmio de risco em juro global. Quando o Golfo tosse, o bolso brasileiro se resfria, e ninguém nunca vai ao ministério cobrar a conta.

No fim, a única condição que interessa é a que o Ocidente não tem coragem de impor. Não se negocia com quem promete destruir o vizinho, se contém quem promete destruir o vizinho. Toda vez que a diplomacia trata bandido como estadista, o bandido sai mais forte e o estadista sai mais fraco. E depois estranham quando a próxima geração de foguetes cai onde não devia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.