O Irã, que arma milícias do Líbano ao Iêmen, e os Emirados, que compram petróleo iraniano por triangulação e vendem armas ocidentais para meio Oriente Médio, apareceram lado a lado numa declaração do BRICS pedindo "moderação" nos conflitos em curso. É o tipo de cena que só não é engraçada porque custa vidas. Dois regimes que vivem da instabilidade regional, cada qual financiando facções opostas conforme o vento sopra, assinam o mesmo pergaminho como se fossem monges beneditinos pedindo silêncio no refeitório.
Olha, moderação vinda de Teerã é como sermão de sobriedade em taverna. O regime dos aiatolás construiu sua política externa inteira sobre o exportação metódica de caos, financiando o Hezbollah, os houthis, o Hamas e uma dúzia de siglas menores com dinheiro que sai do bolso do iraniano comum, aquele que faz fila para comprar pão enquanto o Corpo da Guarda Revolucionária compra drones. Os Emirados, por sua vez, jogam xadrez em três tabuleiros ao mesmo tempo, vendendo hospitalidade de luxo para oligarcas russos, servindo de hub para contornar sanções e ao mesmo tempo posando de mediador civilizado nas fotos oficiais.
Quer dizer, o BRICS descobriu algo que os impérios antigos já sabiam: retórica de paz é o subsídio mais barato que existe. Não custa munição, não gasta reservas cambiais, não exige tropas e ainda rende manchete favorável na imprensa que trata bloco emergente como sinônimo automático de virtude geopolítica. Enquanto isso, no mundo real, o dinheiro que financia a "moderação" declarada continua irrigando os mesmos canais que sustentam a beligerância prática. Siga o dinheiro, sempre, e você verá que o petróleo iraniano contrabandeado por navios que trocam de bandeira no meio do oceano abastece justamente as economias que agora pedem calma nos comunicados.
Existe uma velha regra de análise política que nunca falha: quando dois governos historicamente adversários assinam a mesma declaração de bons sentimentos, é porque descobriram um interesse comum que nenhum dos dois quer verbalizar. Neste caso, o interesse é evidente: preço do barril, rotas comerciais, e a chance de posar como alternativa moral ao Ocidente enquanto se aproveita da confusão que o próprio Ocidente ainda tem que administrar. É a velha diplomacia de vender veneno e antídoto no mesmo balcão, cobrando por ambos.
O leitor atento nota que essas declarações multilaterais funcionam como cortina de fumaça semiótica. Pedir moderação sem nomear quem está imoderado, sem exigir cessação de financiamento a milícias, sem apontar responsabilidades concretas, é o equivalente diplomático de bater palma para o incêndio esperando que ele apague sozinho. Serve para o consumo interno de cada regime, que pode dizer ao próprio povo que "trabalha pela paz", enquanto no back office as engrenagens de sempre continuam girando na direção oposta.
No fim, o comunicado do BRICS entra para o arquivo daquelas peças que só têm valor sociológico, um documento útil para futuros historiadores entenderem como o século XXI aprendeu a mentir em coro, com carimbo oficial e tradução simultânea. Paz assinada por quem lucra com a guerra é apenas propaganda com melhor tipografia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.