O Irã enforcou nesta semana mais um homem condenado por supostamente espionar para o Mossad, e a imprensa internacional noticiou o fato com a mesma naturalidade com que se registra a chuva de outono em Teerã. Olha, quando um regime executa cidadãos sob a acusação de "colaboração com potência inimiga" e o processo corre em tribunal revolucionário, a portas fechadas, sem defesa autônoma e sem apelação real, o que se está descrevendo não é justiça, é liturgia. A forca é o altar, a acusação é o dogma, e o corpo pendurado é a hóstia oferecida ao regime para que ele se legitime mais um dia diante da própria população aterrorizada.

Quer dizer, é preciso ter uma dose considerável de ingenuidade, ou de cinismo bem remunerado, para tratar as execuções iranianas como se fossem o desfecho natural de um sistema penal funcional. O regime dos aiatolás executou mais de novecentas pessoas só no ano passado, número que coloca o Irã em segundo lugar mundial em execuções per capita, atrás apenas de si mesmo em anos anteriores. Espionagem, tráfico, apostasia, "corrupção na terra", "guerra contra Deus", os rótulos variam, o resultado é o mesmo: um corpo balançando num guindaste amarelo em avenida pública, transmitido pela televisão estatal como pedagogia do medo. Isso não é sistema jurídico, é teatro de horror com orçamento público.

Me diz uma coisa, alguém acredita mesmo que um regime que prende manifestante por tirar o véu, que enforca adolescente por atirar pedra em viatura, que estupra prisioneira antes de executá-la porque a tradição religiosa deles proíbe matar virgem, alguém acredita mesmo que esse aparato de repressão respeita o devido processo legal quando o acusado é apresentado como espião de Israel? A acusação de espionagem no Irã funciona como coringa jurídico: cabe em qualquer manga, justifica qualquer pena, silencia qualquer questionamento. Se o sujeito era mesmo agente do Mossad, ninguém saberá jamais, porque as provas nunca são públicas, os interrogatórios acontecem sob tortura documentada por relatórios de organismos internacionais, e a confissão televisionada é praxe do manual persa de propaganda desde 1979.

E aqui é onde a coisa fica interessante para quem sabe seguir o rastro. O regime iraniano precisa desesperadamente de inimigos externos porque a economia interna está em frangalhos, o rial derrete diante do dólar em ritmo de sorvete no asfalto de agosto, a inflação anual passou dos quarenta por cento, e a juventude iraniana, hiperconectada e educada, já não engole a mitologia revolucionária dos setentões que governam desde antes de ela nascer. Cada execução é uma injeção de adrenalina no cadáver ideológico do regime. Cada "espião do Mossad" enforcado é uma tentativa de renovar o contrato de medo com uma população que já percebeu que o problema não é Tel Aviv, é o palácio em Teerã.

O detalhe que a imprensa ocidental raramente sublinha é que regimes teocráticos e regimes socialistas compartilham a mesma arquitetura básica: concentração absoluta de poder, ausência de contrapesos, controle do sistema de preços quando é economia e controle do sistema de verdade quando é religião, e um aparato repressivo que trata o cidadão como propriedade do Estado. Muda o verniz, muda o vocabulário, muda o santo do altar, mas a estrutura é a mesma. Onde o indivíduo não tem direitos anteriores ao poder, o poder devora o indivíduo, e chama esse ato de digestão de "justiça revolucionária", "justiça popular" ou, no caso persa, "justiça islâmica". Nomes bonitos para a mesma coisa antiga: alguém com uma corda decidindo quem respira amanhã.

Enquanto isso, chancelarias europeias emitem notas de "profunda preocupação", a ONU convoca reunião de emergência que não emerge em coisa nenhuma, e empresas ocidentais discutem discretamente se vale a pena voltar a fazer negócios com Teerã porque o petróleo iraniano é barato e o pragmatismo é sempre o álibi predileto de quem prefere não ver. O corpo do enforcado esfriou antes que o comunicado da União Europeia fosse traduzido para o farsi. E a lição que fica, para quem ainda tem estômago para aprender, é que a liberdade individual não é um luxo ocidental, é a única coisa que separa o cidadão da forca quando o Estado decide que precisa de um espião para exibir na próxima sexta-feira.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.