Enquanto porta-vozes do regime iraniano recitam suas condições para "considerar" retomar o diálogo com os Estados Unidos, os houthis, que caem do céu como se fossem espontâneos, intensificam ataques a embarcações no estreito de Bab el-Mandeb. A coincidência é tão espontânea quanto a fila do INSS em ano eleitoral. Teerã fala macio na mesa e atira duro pela procuração dos primos do Iêmen, e ainda espera que Washington chame isso de gesto de boa-fé. É o velho truque do sequestrador que oferece negociar o resgate depois de mostrar a arma na tela.

Olha, ninguém precisa de mestrado em relações internacionais para entender a mecânica. O Irã investiu décadas em construir uma rede de milícias por procuração, Hezbollah no Líbano, Hamas em Gaza, houthis no Iêmen, kataib no Iraque, justamente para poder atacar sem assinar. Toda vez que o Ocidente aceita a ficção de que "o Irã não controla o que os houthis fazem", está pagando pela mentira e chamando a fatura de diplomacia. E a fatura, convém lembrar, sempre chega em dólares, em barris de petróleo mais caros e em containers que passam a dar a volta pela África porque o Canal de Suez virou roleta russa.

Quer dizer, siga o dinheiro e a peça se encaixa. Cada míssil houthi custa menos que o interceptador americano usado para abatê-lo, cada rota comercial desviada encarece o frete que você paga no supermercado, cada apólice de seguro marítimo que sobe é riqueza transferida de consumidores em Brasília, Berlim e Boise para uma teocracia que sobrevive vendendo petróleo com desconto para a China. É guerra econômica assimétrica, e do lado americano só se vê comitês, relatórios e a fantasia de que negociar o programa nuclear vai resolver o problema. Não vai. O programa nuclear é sintoma; a doença é um regime que precisa de inimigo externo para justificar sua tirania interna.

E aqui está a parte que a imprensa educada finge não ver. O regime iraniano só existe porque duas gerações de diplomatas ocidentais acreditaram que concessão gera moderação. Deram alívio de sanções, descongelaram bilhões, financiaram indiretamente o Corpo dos Guardas da Revolução, e a resposta foi mais milícias, mais mísseis, mais reféns. É o experimento social clássico: cada vez que você paga pelo mau comportamento, garante que ele se repita. Uma criança de cinco anos entende; uma chancelaria de duzentos assessores, não.

O Brasil, que naturalmente se acha protagonista mundial toda vez que emite nota de "preocupação", deveria olhar para o próprio bolso. Setenta por cento do comércio global passa por rotas marítimas, e o preço do combustível que abastece o caminhão que traz o feijão até o Pão de Açúcar depende diretamente de quem controla o estreito de Ormuz e o Mar Vermelho. Enquanto o Itamaraty pratica equidistância moral entre bombeiro e incendiário, o consumidor brasileiro paga a fatura da neutralidade envergonhada em cada litro de diesel.

A verdade que ninguém quer dizer em voz alta é simples. Regimes ideológicos não negociam de boa-fé; usam a mesa como palco e o tempo como arma. Toda condição prévia aceita é uma vitória concedida antes da primeira frase. E o Ocidente, embriagado de terapia coletiva e culpa histórica, está prestes a cair no mesmo golpe pela quarta ou quinta vez, contando devagar. Quando o resgate for cobrado, ninguém se lembrará de que a chave estava do lado de dentro o tempo todo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.