A Jefferies apareceu com a previsão de que o S&P 500 chega aos 9.000 pontos até 2027, e a mídia financeira replicou o número como quem anuncia previsão do tempo. Ninguém parou para perguntar o mais importante, que é de onde vem essa gasolina toda. Bolsa não sobe porque analista escreve relatório bonito; sobe porque tem liquidez sendo empurrada goela abaixo do sistema, e liquidez em quantidade industrial não brota de árvore, sai de balanço de banco central e de déficit fiscal americano que já passou dos trinta e sete trilhões de dólares e continua rolando.

O truque é antigo e sempre o mesmo. Quando o governo americano gasta o que não tem, o Tesouro emite dívida, o Fed direta ou indiretamente acomoda a curva, e uma parte substancial desse dinheiro novo escorre para ativos financeiros antes de chegar no supermercado. Quem está posicionado em ações vê o portfólio inflar e chama isso de bull market. Quem depende de salário vê o preço do bife subir e chama isso de vida cara. É a mesma moeda, é o mesmo fenômeno, só que atinge cada um em momento diferente da fila, e quem está no fim da fila sempre paga a conta dos que estavam na frente.

Repare na acrobacia lógica dos otimistas de plantão. Eles projetam múltiplos generosos, revisam para cima os lucros esperados, embutem cortes de juros na conta e concluem que o índice tem que subir cinquenta por cento em dezoito meses. Nenhum deles se dá ao trabalho de explicar o que acontece com o consumidor americano endividado, com o setor imobiliário comercial pendurado em refinanciamentos impossíveis, ou com os bancos regionais que ainda carregam títulos comprados na era do juro zero e que valem hoje uma fração do que custaram. Esses detalhes não aparecem no relatório porque estragariam a narrativa.

E aqui aparece a parte que o brasileiro precisa entender antes de sair comprando ETF de S&P achando que é dinheiro fácil. Toda vez que o mercado americano vive uma dessas festas de liquidez, o efeito colateral chega aqui como enxurrada de capital especulativo, aprecia o real artificialmente, mascara os problemas fiscais domésticos e cria a ilusão de que o Brasil está indo bem quando na verdade está apenas surfando a onda alheia. Quando a maré vira, e ela sempre vira, quem estava nu na praia é o país que não fez o dever de casa, e o dever de casa aqui continua rasgado no chão do Planalto.

O padrão é conhecido de quem estudou o século vinte com um mínimo de honestidade. Bolha das ferrovias, bolha dos anos vinte, bolha da nifty fifty, bolha das ponto com, bolha imobiliária de 2008, e agora essa bolha de tudo alimentada por quinze anos de repressão financeira global. Cada vez que estoura, os mesmos economistas que juraram que era diferente aparecem na televisão dizendo que ninguém poderia ter previsto. Poderia sim. Bastava olhar para o balanço do Fed em vez de olhar para o preço da ação.

Nove mil pontos até 2027 é possível, ninguém está negando a aritmética. O que precisa ficar claro é que atingir esse número exige uma dose adicional de expansão monetária que vai devorar mais um naco do poder de compra de quem guarda dinheiro em conta corrente, de quem vive de aposentadoria, de quem trabalha por salário fixo. A festa dos ativos financeiros é sempre pago por quem não tem ativo financeiro nenhum, e o silêncio conveniente dos relatórios de banco de investimento sobre esse pequeno detalhe já diz tudo sobre para quem eles trabalham.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.