A cena tem um sabor quase litúrgico. O jovem de vinte e poucos anos que se apresentava como oráculo da superinteligência, autor daquele manifesto grandiloquente sobre a década que decidiria o destino da humanidade, acaba de ser expulso da mesa do JPMorgan como um adolescente que quebrou o vaso da sala. O banco cortou a linha de crédito depois que o fundo dedicado a apostas concentradas em inteligência artificial acumulou perdas que fariam qualquer gestor experiente pedir demissão antes do café da manhã. Não é falência de um homem; é a primeira rachadura visível na catedral que os evangelistas da IA construíram com dinheiro alavancado dos outros.
Vale seguir o dinheiro, porque é aí que a mitologia se desmancha. O fundo captou centenas de milhões prometendo que a próxima década pertenceria a quem tivesse coragem de comprar caro e vender caríssimo os fabricantes de picaretas dessa nova corrida do ouro. O JPMorgan entrou com crédito, cobrou taxas gordas, viu as garantias derreterem quando as ações de semicondutores e infraestrutura de IA começaram a corrigir, e fez o que qualquer credor sóbrio faz quando o colateral vira fumaça: puxou a linha. Do lado de cá sobra o cotista, que comprou o discurso messiânico e agora descobre que profecia não paga margin call.
Há algo profundamente instrutivo nesse tombo, e não tem a ver com inteligência artificial. Tem a ver com o velhíssimo mecanismo pelo qual dinheiro barato produz gênios instantâneos. Quando o custo do capital foi zerado durante uma década por decreto de banco central, qualquer moleque com um PowerPoint apocalíptico virou visionário, qualquer tese excêntrica virou tese sofisticada, e a linha entre convicção e delírio foi apagada pela liquidez. Agora que o juro voltou a existir, a peneira funciona de novo, e o que resta é aquele barulho seco de castelo de cartas encontrando o chão.
Repare no que ninguém está vendo enquanto todos olham para o Aschenbrenner caído. Cada dólar que o JPMorgan emprestou para essa aposta concentrada foi um dólar que não foi para uma pequena indústria em Ohio, para um produtor rural no interior, para o empreendedor que precisava de capital de giro e ouviu que o banco estava seletivo. O crédito não some no ar; ele é sempre desviado de algum lugar. A mania especulativa financiada por sistema bancário fracionário sempre cobra essa fatura invisível, e sempre é a economia produtiva que paga a conta enquanto os salões da elite financeira brincam de profecia tecnológica.
O detalhe mais delicioso, e o mais revelador, é o silêncio ensurdecedor da imprensa especializada que meses atrás tratava o rapaz como se fosse a reencarnação de algum físico do século vinte. As mesmas colunas que reproduziam sem crítica o manifesto sobre a década decisiva agora se contorcem para explicar que sempre houve ceticismo, que os fundamentos permanecem sólidos, que o setor continua promissor. É a coreografia de sempre. Quando o boom bomba, o hype é jornalismo. Quando o bust chega, o hype foi cobertura equilibrada de um debate legítimo. Ninguém foi enganado, ninguém errou, ninguém pediu desculpa ao leitor.
O que esse episódio ensina não é que a inteligência artificial é bolha, embora provavelmente seja em boa parte. Ensina que toda vez que uma geração inteira decide que descobriu a nova física da economia, que os ciclos foram abolidos, que os fundamentos não importam mais porque estamos vivendo a mudança civilizacional definitiva, é hora de conferir a carteira e respirar fundo. A humildade diante do desconhecido é a única virtude que separa o investidor do apostador, e o apostador acaba de ser desmascarado por aquilo que sempre desmascara: a chegada do vencimento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.