A cena é digna de novela: um magistrado federal ordena que a Casa Branca de Donald Trump devolva as credenciais a veículos de imprensa que haviam sido excluídos do pool rotativo, aquele grupinho seleto que acompanha o presidente de perto. A justificativa oficial da administração foi a de sempre quando o poder quer filtrar quem faz pergunta, alegações difusas de "reorganização", "critério editorial", "prioridade a novas mídias". A tradução honesta, para quem não perdeu o hábito de ler nas entrelinhas, é mais simples: quem incomoda fica do lado de fora do portão.
Olha, a piada aqui não é a decisão judicial em si, é o script. Todo governo, sem exceção ideológica, descobre em algum momento que a imprensa livre é um estorvo, e todo governo tenta, com maior ou menor sofisticação, montar seu próprio jardim de flores obedientes. Trump faz isso com a truculência de quem não se dá ao trabalho de disfarçar. Seus antecessores faziam com sorriso, coquetel e vazamento seletivo para o jornalista amigo. O método muda, a intenção é a mesma: controlar o que se pergunta é a maneira mais barata de controlar o que se responde.
Quer dizer, é conveniente que os mesmos veículos que passaram oito anos elogiando o "acesso sem precedentes" da Casa Branca de Obama, quando este perseguia jornalistas com a Espionage Act mais do que qualquer presidente na história, agora descubram de repente que a liberdade de imprensa é sagrada. É conveniente também que a direita, que aplaudiu Trump excluindo a CNN, hoje talvez precise reaprender que o mesmo poder que hoje bane o inimigo, amanhã bane o amigo. A cerca que se derruba porque atrapalha o próprio time volta a ser útil quando o adversário assume o cargo, e aí é tarde.
Me diz uma coisa, quem paga essa festa toda? O contribuinte americano, que sustenta uma máquina de comunicação estatal cada vez mais parecida com relações-públicas do ocupante do momento, e que assiste no noticiário a briga entre um presidente ressentido e uma imprensa que confundiu jornalismo com militância faz tempo. Ninguém ali está pensando no leitor. Estão negociando acesso, favores, entrevistas exclusivas, convites para jantar. O pool da Casa Branca virou clube, e todo clube tem porteiro, e todo porteiro atende ao dono.
A decisão judicial acerta no princípio e desnuda o problema mais profundo. Quando o governo tem tanto poder discricionário sobre quem cobre o governo, a "liberdade de imprensa" vira concessão administrativa, coisa que se dá e se tira ao gosto do funcionário público de plantão. A imprensa que se acostumou a depender do acesso oficial, do briefing amigável, da fonte no gabinete, é a mesma que descobre tarde demais que virou refém do próprio poder que deveria vigiar. Cão de guarda com coleira curta não late no dono, apenas nos vizinhos escolhidos.
No fim, o juiz mandou reabrir a porta, mas a porta continua sendo de quem mora na casa. Enquanto o Estado for esse gigante que decide quem entra, quem fala, quem pergunta e quem publica, cada ciclo eleitoral vai repetir a mesma comédia com atores diferentes. A liberdade de imprensa de verdade não se decreta em salão de plenário, se conquista quando o jornalista para de precisar da bênção do palácio para trabalhar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.