O Jyske Bank anunciou que gastou 56,7 milhões de coroas dinamarquesas recomprando as próprias ações durante a semana 37, e o mercado recebeu a notícia com aquele aplauso morno que só a Bolsa consegue dar: um bocejo disfarçado de otimismo. A operação faz parte de um programa maior, desses que os bancos adoram, porque permite empurrar o preço da ação para cima sem precisar fazer nada minimamente produtivo, como, por exemplo, emprestar dinheiro para quem realmente precisa dele.

Quer dizer, vamos ao que interessa. Recompra de ação, no papel, é o banco devolvendo capital ao acionista. Na prática, é o banco confessando que não encontrou nenhum projeto, nenhum empréstimo, nenhuma oportunidade de investimento produtivo que renda mais do que simplesmente comprar de volta os próprios papéis. É o equivalente corporativo de um sujeito que, sem ter o que fazer com o salário, decide se pagar de novo. E ainda quer que você bata palmas.

Olha, o mecanismo é simples e tem um custo invisível que ninguém no press release quer mencionar. Cada coroa que vai para recompra é uma coroa que não virou empréstimo para uma padaria em Aarhus, uma linha de crédito para um pequeno importador, uma hipoteca para uma família jovem em Copenhague. O que se vê é o gráfico da ação subindo. O que não se vê é a economia real minguando um pouquinho, silenciosamente, enquanto os executivos com bônus atrelado à cotação sorriem para o espelho.

E aí entra a pergunta que ninguém no jornalismo econômico faz, porque incomoda demais os anunciantes: quem, exatamente, se beneficia disso? Siga o dinheiro. A recompra reduz o número de ações em circulação, o que artificialmente eleva o lucro por ação, o que dispara os gatilhos de bônus da diretoria, o que engorda o pacote dos executivos, o que, veja só, é decidido pelo conselho que os próprios executivos ajudaram a compor. É um circuito fechado, um moto-perpétuo de autoprêmio, e o acionista minoritário é convidado a aplaudir porque, tecnicamente, sua fatia do bolo ficou um pouquinho maior. Só esqueceram de contar que o bolo, no fundo, é o mesmo.

Tem também o pano de fundo monetário, que é onde a coisa fica realmente indecente. Durante mais de uma década, os bancos centrais europeus mantiveram juros nas catacumbas, distribuindo dinheiro barato como se fosse balinha em porta de escola. O sistema bancário, entupido de liquidez sem destino produtivo, aprendeu que é mais lucrativo brincar de engenharia financeira do que fazer o trabalho tedioso de analisar risco de crédito de PMEs. Recompra virou vício, e a instituição financeira que deveria alocar capital no que gera riqueza real acabou virando um clube que compra a si mesmo em rodadas cada vez maiores. A conta desse festival, como sempre, chega depois, e nunca no colo de quem organizou a festa.

O curioso é a naturalidade com que a imprensa financeira reporta esses movimentos, como se fossem eventos meteorológicos. "O banco recomprou ações no valor de X." Ponto. Sem perguntar por quê, sem perguntar às custas de quem, sem perguntar se aquele capital não faria mais bem circulando na economia produtiva do que inflando um múltiplo de mercado. É como se aceitássemos que o papel de um banco é engordar a própria cotação, e não intermediar poupança e investimento. Perdemos a memória do que um banco deveria ser, e agora batemos palmas para que ele seja um espelho caro se admirando na parede.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.