Neel Kashkari, presidente do Fed de Minneapolis, foi à Fox News dizer, com toda a solenidade de um oráculo, que a inflação nos Estados Unidos ainda está alta demais em todos os setores da economia. Quer dizer, o bombeiro chegou ao incêndio, olhou as chamas por alguns anos, e agora aparece na televisão para informar, gravemente, que sim, está pegando fogo. E o telespectador é convidado a bater palmas pela lucidez do diagnóstico, como se o próprio bombeiro não tivesse passado a década anterior despejando gasolina no imóvel com uma mangueira de dinheiro novo.
A confissão vem embrulhada naquela liturgia técnica que o Fed usa para transformar sua própria obra em fatalidade da natureza. Fala-se em setores, em métricas centrais, em expectativas ancoradas, em qualquer coisa, contanto que não se pronuncie a palavra que explicaria tudo: emissão. Porque a inflação alta em todos os setores ao mesmo tempo não é fenômeno setorial, não é oferta, não é cadeia global, não é a guerra de plantão. É o que sempre foi, em todo lugar em que apareceu: excesso de moeda perseguindo bens que ninguém decretou produzir na mesma velocidade. O resto é maquiagem para reunião de imprensa.
Vale seguir o dinheiro, como sempre. O Tesouro americano gasta o que não tem, o Fed compra a dívida que sobra, os bancos comerciais reciclam a farra em crédito barato, e Wall Street cobra pedágio no meio do caminho. A festa financeira comeu peru e champanhe durante anos, os ativos infláveis inflaram, as fortunas dos primeiros da fila se multiplicaram no monitor. A conta, no entanto, foi despachada para a lanchonete da esquina, para o aluguel da família de classe média, para o pão do aposentado. Estes últimos, que jamais viram um centavo dos estímulos, são os que agora pagam o café mais caro e ouvem, ainda por cima, sermão paternal sobre paciência com o processo desinflacionário.
Há um detalhe interessante nessa dramaturgia. O mesmo colegiado que jurou por meses que a inflação era transitória, depois disse que era estrutural, depois que estava controlada, depois que não estava tanto assim, agora reaparece dizendo que continua alta demais em todos os setores. É a mesma trupe, com os mesmos assentos, com os mesmos salários, com a mesma reverência da imprensa financeira. Nenhum foi demitido. Nenhum pediu perdão. Nenhum sequer corou. Julgue a instituição pelas ações, não pelos discursos: em cada crise que ela mesma cozinhou, saiu maior, com mais poderes e menos escrutínio. É este o negócio.
Pior é o efeito social do estrago, aquela parte que raramente entra no gráfico. Cada ponto de inflação é um imposto silencioso que ninguém votou, que corrói poupança, achata salário, encolhe o horizonte do jovem casal que queria comprar casa e do velho que queria aposentar em paz. Enquanto isso, o cidadão é convidado a acreditar que o problema é a ganância do padeiro, a ganância do posto de gasolina, a ganância de qualquer um menos a do único ator no jogo que tem, literalmente, o monopólio legal de fabricar dinheiro do nada. O padeiro reajusta o pão porque a farinha subiu; o Fed reajusta a realidade inteira porque decidiu, num comitê, que era assim que ficaria melhor.
A entrevista de Kashkari, no fundo, é útil por um motivo só, e não é o que ele imagina. Serve para lembrar que a instituição encarregada da estabilidade monetária está, mais uma vez, admitindo em rede nacional que fracassou naquilo para o qual existe, sem que isso produza qualquer consequência sobre ela mesma. Confiscam-se salários pela impressora, disfarça-se o confisco de fenômeno econômico, chama-se o incendiário para explicar o incêndio, e o público é orientado a esperar mais alguns trimestres. Enquanto houver quem aplauda o discurso, haverá quem imprima a moeda. E enquanto houver quem imprima a moeda, o pão continuará caro, a poupança continuará derretendo, e a próxima entrevista trará, com a mesma cara séria, exatamente a mesma descoberta.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.