A KazMunayGas, braço petrolífero do governo cazaque, acaba de encerrar uma oferta de recompra de US$ 500 milhões em títulos que venceriam em 2030. O comunicado foi vendido como sinal de saúde financeira, como se a empresa estivesse tão nadando em caixa que resolveu aposentar dívida antecipadamente por generosidade. Quem lê o parágrafo oficial imagina uma companhia próspera fazendo gentileza ao mercado. Quem lê nas entrelinhas percebe outra coisa: uma estatal reorganizando o passivo antes que o custo do dinheiro estrangeiro suba mais, ou antes que a próxima crise de commodities coloque o balanço em lençóis quentes.
A pergunta que ninguém no comunicado responde é a mais simples de todas. De onde veio o meio bilhão de dólares usado nessa recompra? Estatal de petróleo não fabrica riqueza do nada; extrai, vende e paga royalties ao caixa central. Cada dólar usado para recomprar título com vencimento daqui a quatro anos é um dólar que não foi para investimento em capacidade produtiva, não foi para o cidadão cazaque na forma de tributação menor, não foi para o fundo soberano que supostamente deveria proteger as gerações futuras do país. O que se vê é a manchete corporativa; o que não se vê é a pilha de projetos de exploração adiados, a manutenção de campos maduros postergada, o poder de compra do trabalhador de Astana corroído pela mesma moeda que agora sustenta a operação financeira.
Há um padrão previsível quando estatais de commodities fazem esse tipo de dança. Aproveitam janelas de liquidez global para trocar dívida cara por dívida barata, ou para retirar do mercado papéis que começam a incomodar as agências de rating. É a versão petrolífera do truque contábil que qualquer devedor endinheirado usa: pega empréstimo novo para pagar empréstimo antigo, e sai declarando que "reduziu passivo". A imprensa financeira, treinada para reproduzir o release sem cheirar o cheiro, aplaude. Quatro anos depois, quando o refinanciamento seguinte vier com juros piores, ninguém lembra da festa de hoje.
O Cazaquistão vive uma situação particularmente delicada. Espremido entre a Rússia sancionada e a China faminta por energia, virou peça de xadrez do ocidente para diversificar o fornecimento de hidrocarbonetos fora da órbita de Moscou. Isso trouxe capital estrangeiro em enxurrada, mas também colou a KazMunayGas em uma dependência de mercado que não perdoa erro. Cada operação financeira dessa empresa é sinal para investidores em Londres, Nova York e Singapura. Recomprar títulos agora é dizer: estamos com fôlego, confiem em nós, o próximo bond que emitirmos merecerá cupom menor. É marketing financeiro travestido de disciplina fiscal, e tem preço.
O preço, como sempre, é pago por quem não sentou à mesa da decisão. O trabalhador do setor petroleiro cazaque não votou para que a estatal usasse meio bilhão em engenharia de balanço em vez de reajuste salarial. O contribuinte de Almaty não foi consultado se preferia ver esse dinheiro em estradas, hospitais ou escolas. O poupador que confia na moeda nacional descobre, pela enésima vez, que os recursos gerados por um recurso finito e não renovável escoam por dutos invisíveis rumo a operações financeiras que só interessam ao alto escalão e aos bancos de investimento que estruturam o negócio. Petróleo saindo do subsolo, dólares saindo do país, cidadão ficando com a estepe e a promessa.
Toda vez que uma estatal celebra uma manobra desse tipo, o observador atento deveria fazer três perguntas em silêncio. Quem ganhou comissão para estruturar a recompra? Qual banco de investimento levou a fatia do bolo? E, sobretudo, que emissão nova está sendo preparada nos bastidores para financiar essa "prudência" tão anunciada? A resposta a essas três perguntas nunca aparece no release. Aparece, cinco ou seis anos depois, no relatório de algum comitê parlamentar que ninguém lê, quando a próxima crise obrigar a explicar por que a dívida da estatal dobrou enquanto o discurso oficial dizia que estava caindo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.