A cena se repete com a pontualidade de um relógio suíço quebrado. Um analista de um banco médio acorda numa manhã qualquer, olha para a planilha, decide que a fabricante de tintas Sherwin-Williams merece preço-alvo de trezentos e sessenta e cinco dólares, e imediatamente meia Wall Street replica a notícia como se fosse tábua descida do monte. Ninguém pergunta pelo modelo, ninguém questiona as premissas, ninguém tem coragem de lembrar que o mesmo tipo de recomendação, feita com a mesma confiança, cravou preços-alvo estratosféricos para bancos regionais americanos meses antes deles quebrarem em dois mil e vinte e três. A memória do mercado financeiro tem a duração de um piscar de olhos, e é exatamente por isso que ele precisa de tantos bancos centrais para se salvar de si mesmo a cada década.

Olha, tinta é um dos termômetros mais honestos que existem. Quando a construção civil aquece, quando famílias compram casa, quando escritórios se expandem, a demanda por tinta sobe. Quando o crédito seca, quando a hipoteca americana passa dos sete por cento, quando o consumidor endividado até o pescoço precisa escolher entre reformar a sala ou pagar o cartão, a lata de tinta fica na prateleira. E é justamente nesse cenário, com a atividade imobiliária americana no menor patamar em quase três décadas, que aparece o relatório eufórico dizendo que a ação está barata e vai voar. Quer dizer, alguém está vendo uma economia que o resto de nós não está vendo, ou alguém precisa colocar o cliente institucional dentro do papel antes que a festa acabe.

Me diz uma coisa, quem ganha quando um banco de investimento inicia cobertura com recomendação positiva? Primeiro, o próprio banco, que muito provavelmente tem posição comprada no papel ou está prestando serviço de banco de relacionamento para a empresa coberta. Segundo, os fundos que já compraram e agora têm uma justificativa institucional para segurar. Terceiro, o executivo da empresa coberta, cuja remuneração variável está atrelada ao preço da ação. Perdeu quem? O aposentado que compra no topo achando que analista de banco americano tem bola de cristal, e o pequeno investidor brasileiro que enxerga um relatório em inglês e acredita que ali existe alguma verdade revelada que o mercado local não teria. Siga a trilha do dinheiro e a mágica se dissolve.

O ponto mais desonesto dessa história toda é a ilusão de que existe algo chamado análise fundamentalista pura, descolada de interesse, produzida por vestais em laboratório assepticamente isolado da mesa de operações. Isso nunca existiu e nunca existirá. Todo relatório é escrito com uma mão no teclado e outra segurando o cliente institucional que precisa vender ou comprar aquela posição. Quando o Federal Reserve inundou o sistema com trilhões de dólares durante a pandemia, esses mesmos bancos escreveram que ações estavam baratas em todo múltiplo imaginável. Quando o Fed começou a apertar, os mesmos analistas descobriram que múltiplos importam. Convertida em português claro, a análise de sell side é a área de marketing do banco vestida com jaleco de pesquisador.

Existe uma pergunta que nenhum desses relatórios responde e é a única que interessa. Se a economia americana está saudável o suficiente para justificar preço-alvo agressivo em tinta de construção civil, por que o rendimento do título de dez anos do Tesouro americano continua onde está? Por que o índice de confiança do pequeno construtor está no chão? Por que o setor imobiliário comercial está quebrando bancos regionais em silêncio? Ou o mercado de renda fixa está errado, ou o analista de tinta está errado, e a experiência histórica sugere que quando essa divergência aparece, quem geralmente acerta é o cara que negocia com a curva de juros, não o cara que faz apresentação em power point para gestor de fundo mútuo.

A moral da história é velha e não muda. Preço-alvo divulgado por banco é ferramenta comercial, não profecia. O sujeito que segue relatório de sell side como quem segue estrela guia acaba sempre no mesmo lugar, que é comprando o topo e vendendo o fundo, financiando com o próprio bolso a comissão do gestor e o bônus do analista. A tinta pode até subir, o papel pode até performar, mas será apesar do relatório, não por causa dele. Enquanto o cidadão comum for ensinado a confundir marketing financeiro com análise econômica, o roubo continuará sendo legal, sofisticado e aplaudido de pé.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.