A KeyBanc reiterou avaliação positiva sobre a Planet Fitness com base em perspectivas de crescimento, e o mercado recebeu a notícia com o entusiasmo ritualístico de sempre, aquele aplauso automático que se dá a qualquer relatório carimbado por banco grande. O detalhe que ninguém quer olhar de frente é simples, a rede de academias de baixo custo não cresce porque o americano médio ficou mais rico, cresce porque ficou mais pobre e migrou das academias caras para o plano de dez dólares. Quando o analista chama isso de "resiliência do modelo", está descrevendo, sem querer, a degradação silenciosa do poder de compra de uma classe média que já não pode pagar o que pagava.

Olha, há uma diferença abissal entre uma empresa que prospera oferecendo valor genuíno e uma empresa que prospera capturando os cacos da destruição monetária alheia. A Planet Fitness pode ser um negócio excelente do ponto de vista operacional, ninguém disputa isso, mas o combustível macroeconômico que empurra clientes na porta dela é a mesma impressora que corrói salários, infla aluguéis e transforma cada trimestre num exercício de encontrar onde cortar mais um pedaço do orçamento doméstico. O relatório do banco celebra o efeito e finge não ver a causa, porque olhar para a causa exigiria criticar quem paga o salário do analista.

Quer dizer, o próprio negócio de "franquia com equipamento financiado a juros artificialmente baixos por uma década" é filho legítimo da era do dinheiro fácil. Cada nova unidade que abre depende de uma matemática de crédito que só faz sentido enquanto o custo do dinheiro estiver espremido para baixo por decreto do banco central. Quando o juro real volta a existir, essa matemática de guardanapo se desmancha, e o modelo que hoje é chamado de "escalável" passa a ser chamado, com a mesma naturalidade, de "sobrealavancado". O nome muda, a estrutura não.

Me diz uma coisa, quantos ciclos precisaremos assistir para entender que "perspectiva positiva de crescimento" emitida por banco de investimento é peça de marketing travestida de análise? O incentivo está escancarado, banco ganha comissão em operação de dívida, em emissão de ação, em cobertura setorial, e o interesse dele nunca foi dizer ao cliente varejo que talvez o setor esteja bombando porque a economia real está apodrecendo. É o velho arranjo, quem escreve o relatório, quem paga o relatório e quem sofre com o relatório são três pessoas diferentes, e apenas a terceira não senta à mesa.

O que não se vê nesse tipo de notícia é o cardiologista da esquina que perdeu clientes de personal, é a academia de bairro que fechou porque não competia com o dumping do modelo de escala, é o proprietário do imóvel que teve que baixar aluguel para reter a franqueada nacional. Cresce um, morrem cinco, e o índice registra apenas o sobrevivente. Chamam isso de eficiência de mercado, mas mercado eficiente é aquele que opera com preços verdadeiros, não com preços deformados por juro subsidiado e dólar exportado como se fosse recurso natural infinito.

No fim das contas, a Planet Fitness pode muito bem entregar o crescimento que o analista projeta, e ainda assim a história por trás desse crescimento continuará sendo a mesma, a de um país cujo cidadão precisa de uma academia de dez dólares porque perdeu a capacidade de sustentar qualquer coisa mais cara. Aplaudir isso é como aplaudir o vendedor de guarda-chuva por causa da tempestade. A tempestade continua vindo, e alguém precisa dizer que ela não é boa notícia só porque tem quem lucre com ela.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.