A Keysight subiu ao palco da Communacopia mais recente do Goldman Sachs e recitou o mantra que os investidores queriam ouvir: o crescimento se amplia, os pedidos aceleram, a inteligência artificial exige mais instrumentos de teste, os data centers precisam de mais medição, o 5G evolui para 6G, os satélites de baixa órbita demandam validação de espectro. Tudo verdade, e tudo insuficiente para explicar por que uma empresa que fabrica osciloscópios e analisadores de rede virou, de repente, protagonista de conferência de banco de investimento. Quando o comerciante honesto de ferramentas de precisão é convocado para o altar de Manhattan, é porque alguém precisa vender a narrativa de que a próxima onda tecnológica está garantida por décadas. E narrativa, nesse ambiente, custa caro.
Olha, a Keysight faz coisa séria. Ninguém constrói modem, radar, chip de rádio, equipamento médico ou sistema aeroespacial sem passar pela bancada dela ou de meia dúzia de concorrentes globais. É engenharia dura, patente empilhada, capital intelectual acumulado ao longo de décadas desde a velha Hewlett-Packard. O problema não é a empresa. O problema é o ritual em que ela foi inserida. A conferência Communacopia existe para dar aos gestores de fundos uma justificativa elegante para manter posição comprada em tecnologia, e o executivo que sobe ao palco sabe exatamente qual é o roteiro: falar em "expansão de mercado endereçável", "pipeline recorde", "visibilidade multitrimestral", "alavancagem operacional". Esse vocabulário não descreve realidade, descreve expectativa. E expectativa, no capitalismo financeirizado, virou mercadoria mais valiosa que produto.
Me diz uma coisa: quem paga essa festa toda? Segue o rastro do dinheiro e a coisa fica interessante. A demanda por instrumentos de teste em inteligência artificial não brota do nada. Ela vem dos hiperescaladores construindo data centers a jato, e os hiperescaladores estão construindo a jato porque o crédito continua barato o suficiente para justificar investimento cuja rentabilidade real ninguém consegue calcular com honestidade. A onda de capex em IA é filha direta de uma década de juros artificialmente reprimidos, de balanços de bancos centrais inflados até o teto, de uma expansão monetária que empurrou capital para qualquer coisa que soasse futurista. A Keysight vende picareta e pá numa corrida do ouro cuja veia todo mundo finge não notar que pode estar seca por baixo.
Tem outra camada que a apresentação corporativa educadamente omite: parte relevante desse "crescimento que se amplia" vem de contratos ligados a defesa, aeroespacial e programas de gasto público em modernização tecnológica, tanto nos Estados Unidos quanto entre aliados. Ou seja, o contribuinte americano, o contribuinte europeu e por tabela o contribuinte brasileiro que financia a rolagem da dívida americana estão bancando parte considerável do ciclo. O que aparece na tela do investidor como "força secular em test and measurement" é, olhando pela outra ponta, transferência de renda do pagador de imposto para o fornecedor certificado do complexo industrial. Ninguém no palco menciona isso, e o entrevistador do banco também não pergunta, porque perguntar seria quebrar a liturgia.
Há ainda o pequeno detalhe de que conferência de banco de investimento não é jornalismo, é canal de distribuição. O Goldman monta a conferência, convida as empresas de que gosta, produz o relatório que sustenta a recomendação de compra, cobra corretagem do fluxo que a recomendação gera e ainda embolsa a assessoria da próxima emissão da mesma empresa. É um circuito fechado em que analista, banqueiro, executivo e gestor bebem do mesmo copo e depois publicam, cada um em seu tom, a mesma tese. O investidor de varejo lê a manchete no portal financeiro, vê "crescimento se amplia", clica no botão de comprar e acredita que está fazendo análise fundamentalista. Está, na verdade, comprando ingresso para uma peça cujo elenco combinou o final antes do primeiro ato.
Nada disso significa que a Keysight seja fraude ou que a tecnologia de teste vá deixar de ser necessária. Significa apenas que o preço que se paga hoje por essa história embute uma quantidade heroica de fé em três coisas simultâneas: que o dinheiro barato voltará quando os bancos centrais precisarem, que os orçamentos de defesa continuarão inchando, e que a bolha de investimento em IA tem alicerce econômico real e não apenas contábil. Aposte nas três se quiser, mas saiba o que está apostando. O que se vê é o crescimento anunciado no palco iluminado; o que não se vê é a fatura monetária, fiscal e regulatória que sustenta o iluminador. Quando o iluminador for embora, sobra o palco vazio e o ingresso já pago.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.